Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Reidjou
Por Alex Viana
Com mais de três décadas dedicadas à música pesada, a UGANGA chega ao seu oitavo álbum de estúdio com “Ganeshu”, um trabalho que soa como uma espécie de renascimento artístico sem abrir mão das características que construíram a identidade do grupo mineiro. Lançado em 9 de maio de 2025, o disco condensa dez faixas em apenas 26 minutos e aposta em um Crossover que atravessa Thrash Metal, Hardcore e Groove Metal, mas também abre espaço para dub, Rap, psicodelia e elementos eletrônicos. O resultado é curto, urgente e bastante físico, daqueles registros que parecem exigir uma audição completa para que suas diferentes camadas sejam devidamente assimiladas. “Igarapés” funciona como uma introdução atmosférica antes de “A Profecia” colocar o peso em primeiro plano, enquanto “Confesso”, “Tem Fogo!”, “Exu Não Passa Pano” e a faixa-título ajudam a construir um repertório que alterna pancada, groove e experimentação.
Manu Joker é, naturalmente, uma das figuras centrais dessa equação. Fundador da UGANGA, o músico carrega uma trajetória que remonta à cena extrema mineira dos anos 1980 e inclui sua participação no Sarcófago, banda com a qual gravou o EP “Rotting”, de 1989. Em “Ganeshu”, entretanto, sua atuação está muito distante de qualquer tentativa de viver do próprio passado: a voz é usada como instrumento de confronto, alternando drives encorpados, gritos e uma interpretação que preserva a inteligibilidade das letras em português. Manu também participou da construção conceitual e da pré-produção do álbum, além de dividir a produção com Gustavo Vazquez. Essa combinação entre experiência, agressividade e consciência artística faz com que sua presença domine faixas como “A Profecia”, “Confesso” e, principalmente, “Tem Fogo!”, em que a interpretação vocal reforça o caráter urgente da composição.
Quem também merece atenção especial é Juninho Silva, responsável pela bateria e pelos vocais no registro. Seu desempenho é decisivo para a dinâmica de “Ganeshu”, sobretudo porque a UGANGA não depende apenas de velocidade para produzir impacto: há quebras, mudanças de andamento, passagens cadenciadas e momentos em que o groove assume o comando. “Confesso” exemplifica bem essa característica, enquanto “Tem Fogo!” amplia o espectro rítmico com aproximações ao Rap e breakdowns pesados. A bateria mantém a música em permanente movimento, mas sem transformar as composições em demonstrações técnicas gratuitas. Essa escolha combina perfeitamente com o método de gravação adotado no Rocklab Studio, em Anápolis (GO): a base instrumental foi registrada praticamente ao vivo, com Manu fazendo uma guia vocal, justamente para preservar uma pegada próxima daquela apresentada nos palcos.
Nas guitarras e no baixo, respectivamente, Jean Pagani e Raphael “Ras” Franco foram os músicos responsáveis pelas gravações de “Ganeshu”, completando a formação que registrou o álbum ao lado de Manu Joker e Juninho Silva. Pagani contribui para uma parede de guitarras que transita entre riffs secos, bases de Thrash e construções mais próximas do Groove Metal, enquanto Ras sustenta a parte grave com uma atuação que ajuda a manter o peso sem sufocar os demais instrumentos. É importante destacar que ambos deixaram a banda posteriormente, sendo substituídos por Vinícius Luz, ex-Neurose, e Igor Wallace, respectivamente, na formação que passou a levar o repertório para a estrada. Essa informação torna o disco ainda mais interessante como registro de uma fase específica da UGANGA, especialmente porque “Ganeshu” nasceu justamente em meio a profundas mudanças internas e acabou funcionando como uma demonstração de resiliência.
No aspecto conceitual, “Ganeshu” encontra sua identidade na mesma liberdade que caracteriza a música da UGANGA. O título é uma criação de Manu Joker que funde simbolicamente Ganesha, da tradição hindu, e Exu, das religiões afro-brasileiras, duas figuras associadas à abertura de caminhos e à remoção de obstáculos. A capa, concebida por Artur Fontenelle a partir de um conceito de Manu, reforça essa fusão entre referências espirituais e culturais. Musicalmente, a banda transforma essa ideia em movimento: crítica social, espiritualidade, natureza, resistência e experiências pessoais aparecem dentro de uma sonoridade que não aceita fronteiras muito rígidas. “Ganeshu” não tenta suavizar a personalidade da UGANGA nem transformar o Crossover em fórmula; pelo contrário, é um álbum compacto, brutal e experimental, capaz de carregar décadas de estrada para dentro de uma obra que soa atual, inquieta e genuinamente autoral.
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