Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Fullrock
Por Jeferson di Pádua
Nota: 09.5/10.0
O EP “Fé Moderna” coloca a THUNDERDOPE HC diante de um dos temas mais férteis para o Hardcore contemporâneo: a contradição de uma sociedade cada vez mais conectada, mas nem por isso mais consciente ou solidária. Ao abordar alienação social, hipocrisia digital e a necessidade permanente de aprovação nas redes, o grupo baiano encontra um terreno apropriado para sua sonoridade agressiva e seu discurso inconformista. A proposta é direta, sem a preocupação de suavizar críticas ou transformar questões complexas em mensagens excessivamente elaboradas, característica que favorece a comunicação imediata com quem já está familiarizado com o gênero.
A aproximação entre o Hardcore moderno e o Crossover sustenta uma identidade pesada, ríspida e essencialmente visceral. A THUNDERDOPE HC entende que agressividade não precisa significar ausência de dinâmica, e o EP se beneficia dessa percepção ao privilegiar uma execução que transmite urgência e atitude. A energia das composições dialoga diretamente com a tradição contestadora do estilo, enquanto a produção procura manter o impacto necessário para que guitarras, bateria e vocais funcionem como uma única massa sonora. Em contrapartida, a intensidade constante pode reduzir um pouco o contraste entre determinados momentos, fazendo com que algumas passagens percam parte do impacto justamente por não oferecerem maior respiro ao ouvinte.
Entre as músicas, “Maldito Cidadão de Bem” surge como um dos momentos mais contundentes. A faixa mira a intolerância, a falsa moral e os discursos contraditórios que atravessam o cotidiano, utilizando o Hardcore em sua essência mais combativa: não apenas como entretenimento, mas como ferramenta para provocar desconforto e reflexão. O mérito está em evitar uma abordagem excessivamente abstrata, transformando a indignação em uma composição de comunicação rápida e objetiva. É justamente nesse aspecto que o trabalho encontra sua maior força, embora uma exploração lírica ainda mais diversificada pudesse ampliar o alcance conceitual do EP.
“Fé Moderna” também evidencia uma banda que parece compreender bem o espaço que ocupa dentro do underground brasileiro. Em vez de perseguir uma sonoridade excessivamente polida ou abandonar suas raízes para facilitar a assimilação, a THUNDERDOPE HC mantém a sujeira, a contundência e o posicionamento social como elementos fundamentais de sua identidade. O resultado talvez não seja indicado para quem procura sutileza ou grandes variações de clima, mas seria justamente um contrassenso exigir isso de uma obra cuja principal característica é transformar indignação em energia. Há coerência entre discurso, estética e execução, e essa unidade ajuda a conferir personalidade ao lançamento.
No balanço final, “Fé Moderna” cumpre seu papel ao apresentar uma THUNDERDOPE HC mais madura e consciente de suas possibilidades, mantendo o peso do Hardcore e do Crossover enquanto amplia sua presença no ambiente digital. A intensidade quase permanente e a pouca variação em alguns trechos podem ser apontadas como aspectos passíveis de evolução, mas não diminuem a autenticidade de um trabalho que sabe exatamente o que pretende comunicar. E essa nova fase ganha ainda mais relevância com a chegada da banda a um dos maiores times do cenário nacional: agora integrante do Grupo MS Metal, a THUNDERDOPE HC passa a contar com uma estrutura capaz de potencializar sua trajetória e assegurar ainda mais o alto padrão de qualidade de seus próximos lançamentos.
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