Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Reidjou
Por Alex Viana
A STRIGAH chega ao primeiro full-length, “Zoetia”, em 2026, consolidando uma trajetória iniciada em Mauá (SP), em 2022, e desenvolvida anteriormente no EP “A Natureza e o Sistema” (2023) e em singles como “Xamanismo Urbano”, “Espírito da Cidade” e “Extinção Humana Voluntária”. Lançado pelo selo Coffinjoe Records, o álbum reúne dez faixas e aproximadamente 47 minutos de música, tendo Kaio Felipe nos vocais, Samanta Tica no baixo, Eleonardo de Paula na bateria e Matheus Figueredo na guitarra. Conceitualmente, o título combina “zoe”, associado à vida, e “goetia”, ligada ao feitiço, ideia que se traduz em um disco interessado em confrontar a cultura moderna, a degradação ambiental, a alienação tecnológica e a dimensão espiritual do indivíduo.
“A Propriedade é Roubo” é um dos momentos em que “Zoetia” melhor apresenta sua proposta, não apenas pelo conteúdo da letra, voltado à exploração territorial, mineração, latifúndio e violência contra defensores da floresta, mas pela maneira como a música organiza peso e tensão. Riffs densos, mudanças de andamento e uma condução rítmica que evita a linearidade criam um ambiente de instabilidade coerente com o tema. A STRIGAH não trata a complexidade como mero exercício de virtuosismo: as alterações estruturais servem para intensificar a sensação de conflito, enquanto a agressividade vocal amplia o caráter de denúncia. O resultado é uma composição contundente, embora sua quantidade de informações possa exigir algumas audições até que todos os detalhes sejam absorvidos.
Em “Maldito Demiurgo!”, a banda desloca o foco para uma esfera mais filosófica e mística, explorando referências gnósticas relacionadas ao ego, ao desejo, à divisão interna e à noção de um falso paraíso. É justamente nesse contraste que a execução de “Zoetia” ganha força: baixo e bateria sustentam a massa das guitarras, enquanto as mudanças de dinâmica impedem que os mais de seis minutos da faixa se tornem previsíveis. A produção de Yukio Hara favorece esse jogo entre impacto e atmosfera, mantendo os instrumentos suficientemente definidos mesmo quando a composição se torna mais carregada. Há, contudo, uma tendência natural do álbum a privilegiar densidade e informação, característica que pode afastar quem procura estruturas mais imediatas, mas que também constitui parte importante de sua personalidade.
“Florestas Virtuais” talvez seja uma das sínteses mais interessantes do conceito do disco, ao transportar a crítica da degradação ambiental para o universo das máquinas, redes, avatares e relações mediadas pela tecnologia. Essa tensão entre o orgânico e o artificial encontra correspondência na combinação de grooves, polirritmias, quebras de tempo, vozes trabalhadas e atmosferas mais profundas. As influências declaradas de nomes como Fear Factory, Meshuggah, Deftones e Northlane ajudam a contextualizar algumas escolhas, mas a STRIGAH não se limita a reproduzir essas referências: elas aparecem como pontos de partida para uma linguagem que também incorpora elementos do underground brasileiro. A faixa ganha força justamente por não separar mensagem e arranjo, embora seu caráter menos convencional torne o repertório menos acessível em uma primeira audição.
No encerramento, “A Quebra dos Vasos” assume a responsabilidade de concluir uma obra que percorreu natureza, cidade, tecnologia, interioridade e espiritualidade, recorrendo à ideia cabalística de Tikkun, relacionada à reparação e restauração. Seus 7min53s fazem dela a composição mais extensa do repertório e permitem que o álbum termine sem a necessidade de uma resolução convencional ou de um grande refrão final. “Zoetia” funciona melhor justamente quando compreendido como uma obra conceitual que exige participação do ouvinte, e não como uma simples coleção de músicas pesadas. A STRIGAH ainda pode evoluir na busca por pontos de maior imediatismo dentro de suas estruturas complexas, mas sua estreia demonstra segurança suficiente para sustentar uma identidade própria. Para quem acompanha o Metal Moderno, Progressivo, Industrial e experimental brasileiro e não se incomoda em dedicar tempo a um disco denso, o resultado merece atenção.
Notícia mais antiga: Resenha: confira mais uma avaliação positiva do novo single da banda Silver Dose no Brasil »


