Resenha de CD originalmente publicada pelo blog Metal Fire Metal
Por Greg M. Schurtz
Nota: 09.0/10.0
Depois de mais de três décadas de estrada, a UGANGA chega a Ganeshu mostrando que renovação não precisa significar abandono das próprias raízes. Lançado em 9 de maio de 2025, o oitavo álbum de estúdio da banda mineira reúne dez faixas em apenas 26 minutos e transforma o Crossover em um verdadeiro caldeirão de Thrash Metal, Hardcore, Groove, Dub, Rap, psicodelia e elementos eletrônicos. O disco nasceu justamente em meio a uma profunda reformulação do grupo e, como o próprio Manu Joker explicou, representa “um novo momento para a banda. Uma nova era”, com um trabalho “direto, brutal e experimental”. A gravação aconteceu no Rocklab Studio, em Anápolis (GO), com produção dividida entre Manu e Gustavo Vazquez, e a decisão de registrar a base instrumental de forma conjunta, com uma guia vocal, ajudou a preservar aquela sensação de urgência que a UGANGA leva para o palco.
“Igarapés” funciona como uma introdução atmosférica e quase ritualística antes de “A Profecia” entrar rasgando tudo, combinando a velocidade do Hardcore com bases de Thrash e uma guitarra particularmente eficiente de Jean Pagani. Manu Joker segue sendo o grande ponto de referência vocal, alternando peso, agressividade e clareza para que as letras em português não percam força no meio da pancadaria. Em “Confesso”, a banda diminui um pouco a velocidade e deixa o Groove assumir maior protagonismo, com Juninho Silva mostrando por que sua bateria é tão importante para o dinamismo do álbum: há peso, quebradas e mudanças de andamento sem qualquer necessidade de transformar a música em uma demonstração técnica. O próprio Manu resume bem a filosofia do disco ao recomendar que ele seja ouvido inteiro, em ordem, já que as músicas “se completam” dentro desses pouco mais de 26 minutos.
Se existe uma faixa capaz de resumir a capacidade da UGANGA de juntar universos diferentes sem perder a mão, essa é “Tem Fogo!”. O instrumental passeia por Thrash, Rap e breakdowns pesados, enquanto a letra dialoga com o Cerrado, destruição, vícios e referências a Iansã, fazendo da música um dos grandes momentos do álbum. A atuação de Juninho é novamente decisiva, sustentando as mudanças de clima com precisão, enquanto as guitarras de Pagani adicionam riffs que funcionam tanto na audição doméstica quanto naquele contexto de moshpit que parece ser o habitat natural da banda. “Sonho” mantém a alternância entre passagens cadenciadas e momentos mais velozes, preparando o terreno para “Psicoraio Dub”, talvez a demonstração mais evidente de que o grupo não está interessado em obedecer às fronteiras convencionais do Metal. O próprio Manu já explicou que Dub e Doom possuem conexões justamente pela combinação de lentidão, peso e psicodelia — e essa liberdade de pensamento está espalhada por todo o álbum.
“Exu Não Passa Pano” devolve a urgência ao repertório com riffs certeiros, bateria pesada e um refrão que praticamente exige participação coletiva, enquanto “D.R.Ones” aparece como um pequeno interlúdio antes da faixa-título. E é justamente em “Ganeshu” que todas essas experiências parecem encontrar um ponto de convergência. A música, a mais longa do disco, alterna peso, Groove, momentos mais contidos, ritmos regionais e uma conclusão mais extrema, com Manu adotando uma interpretação relativamente mais contida em determinados trechos. O conceito também é fundamental: “Ganeshu” é uma entidade imaginada por Manu a partir da fusão simbólica de Ganesha e Exu, duas figuras associadas à abertura de caminhos e à remoção de obstáculos. A ideia funciona como uma espécie de espelho da própria banda, que há décadas mistura referências culturais e musicais aparentemente distantes. Como o vocalista definiu em entrevista, a UGANGA faz “crossover livre com cheiro de coturno, incenso e ganja” — e dificilmente haveria descrição mais adequada para este álbum.
“Pressentimento”, encerrada com participações de Jonas Pheer, O Eremita Roots e Isabela Melo, fecha Ganeshu de maneira coerente com toda a proposta: incorporando elementos de Rap e ampliando ainda mais o campo de atuação da banda sem abandonar o peso. Vale lembrar que o álbum foi registrado por Manu Joker (voz e percussão), Juninho Silva (bateria e vocais), Jean Pagani (guitarra e vocais) e Raphael “Ras” Franco (baixo e vocais), formação que posteriormente passou por novas mudanças, com Vinícius Luz e Igor Wallace assumindo guitarra e baixo, respectivamente. Mais do que simplesmente apresentar novas músicas, Ganeshu documenta um período de transformação e funciona como um retrato bastante honesto da UGANGA neste momento: curto, pesado, inquieto e disposto a experimentar. Não é um disco feito para quem precisa encontrar uma etiqueta confortável para cada faixa; é um trabalho que pede uma audição completa e recompensa justamente quando o ouvinte aceita embarcar nessa mistura de Crossover, espiritualidade, crítica social e referências que vão muito além do Metal.
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