MS Metal Agency: Você já possui mais de duas décadas de dedicação à música e construiu uma trajetória que passou pelo trabalho como músico de apoio, pela produção autoral e por quatro álbuns — Origins, Maverick, Relentless e Beast Mode. Olhando para esse percurso, quais foram os principais momentos que contribuíram para a construção da identidade artística que você apresenta atualmente como guitarrista e compositor?
Ricky: Acredito que a identidade artística seja algo que vamos construindo naturalmente ao longo do tempo. Cada trabalho reflete um determinado momento da nossa vida, tanto musicalmente quanto pessoalmente. Desde Origins, passando por Maverick, Relentless e chegando ao Beast Mode, fui adquirindo mais experiência, principalmente na maneira de desenvolver as composições e pensar nos arranjos.
Uma coisa que permaneceu praticamente a mesma foi minha filosofia de composição. Nunca tive a intenção de fazer músicas excessivamente técnicas apenas para demonstrar alguma habilidade na guitarra. Sempre procurei escrever algo interessante e prazeroso de tocar, mas que também funcionasse para quem está ouvindo.
A principal evolução está no amadurecimento musical. Hoje consigo perceber com mais clareza quando uma ideia precisa ser desenvolvida, quando determinado trecho já cumpriu seu papel e quando é melhor seguir para outra parte da composição.
MS Metal Agency: “A Pilgrimage to the Inner Light” representa uma mudança importante dentro da sua carreira, principalmente por incorporar, pela primeira vez em seu projeto solo, um vocalista — Adriano Blakk — e por apresentar uma composição com mais de dez minutos de duração. O que motivou essa decisão de ampliar os limites da sua proposta instrumental e transformar a guitarra em parte de uma narrativa que também passa pela voz e pela letra?
Ricky: Digamos que foi pressão popular [risos]. Brincadeiras à parte, sempre achei interessante a possibilidade de incluir vocais em algumas das minhas músicas, embora meu trabalho tenha sido essencialmente instrumental desde o início.
Como A Pilgrimage to the Inner Light é uma composição mais extensa, com diferentes momentos e uma proposta ligada ao Rock e Metal Progressivo, achei que seria uma boa oportunidade para experimentar algo diferente.
O Adriano Blakk é um amigo de longa data. Nós nos conhecemos há mais de 15 anos e, quando comecei a pensar em alguém para assumir os vocais, ele foi a primeira pessoa que me veio à cabeça. Acredito que a voz trouxe uma dimensão diferente para a composição. A guitarra continua tendo um papel fundamental, mas agora existe também uma interpretação vocal que contribui para transmitir a mensagem da música. Foi uma experiência muito interessante e acredito que fizemos uma escolha bastante acertada.
MS Metal Agency: Falando exclusivamente sobre “A Pilgrimage to the Inner Light”: a música aborda autoconhecimento, transformação, superação, identidade e a busca por uma espécie de luz interior. Como esse conceito surgiu durante o processo de composição e de que maneira você trabalhou musicalmente as mudanças de intensidade, atmosfera e dinâmica para representar essa jornada?
Ricky: Sempre gostei muito de Rock e Metal Progressivo e sentia que faltava uma composição com essa proposta no meu catálogo. Queria fazer algo mais extenso, denso e que permitisse desenvolver diferentes ideias ao longo da música.
Em relação ao conceito, acredito que, conforme vamos amadurecendo, começamos a enxergar algumas coisas de maneira diferente. Passamos a rever prioridades, entender melhor o que realmente importa e nos afastar de situações que não acrescentam nada de positivo às nossas vidas. Essa luz interior representa, de certa forma, o autoconhecimento. E chegar até ela não é algo simples ou imediato: é uma peregrinação que exige tempo, amadurecimento e bastante esforço.
Musicalmente, procurei trabalhar essa ideia por meio de diferentes momentos e atmosferas. A música não precisava manter a mesma intensidade durante seus dez minutos. Era importante permitir que os temas se desenvolvessem e que existissem mudanças naturais ao longo da composição. Acho que essa é uma das características mais interessantes do Progressivo: a liberdade de explorar caminhos sem ficar preso a uma estrutura convencional.
MS Metal Agency: Ainda em “A Pilgrimage to the Inner Light”, você reuniu Edu Ardanuy, Roberto Barros e Dallton Santos nas guitarras, além de Giovana Teixeira na bateria e Adriano Blakk nos vocais. Como foi definir o papel de cada participante dentro de uma composição tão extensa e, principalmente, como evitar que a presença de quatro guitarristas transformasse a faixa apenas em uma sucessão de solos e demonstrações de virtuosismo?
Ricky: A primeira coisa que procurei evitar foi justamente transformar a música em um duelo de guitarras. Apesar da quantidade de músicos envolvidos, nunca foi essa a proposta.
A Giovana já havia participado do Beast Mode e tivemos uma experiência excelente trabalhando juntos. Além da qualidade técnica, ela compreende rapidamente aquilo que proponho para as músicas, então foi natural contar novamente com ela. O Adriano é um amigo de longa data e foi minha primeira escolha para os vocais.
Com o Edu, o Dallton e o Roberto, eu já mantinha contato pelas redes sociais. Como queria fazer algo realmente diferente, resolvi convidá-los e todos aceitaram participar. Dei liberdade para que cada um colocasse sua personalidade nas partes que gravaria. Minha preocupação foi principalmente organizar os momentos em que cada um apareceria na composição.
Eu e o Edu acabamos assumindo uma parte maior dos temas e solos, enquanto o Dallton e o Roberto aparecem em momentos específicos, principalmente nas partes mais densas. A ideia foi fazer com que as participações se complementassem e contribuíssem para a narrativa. Não adianta reunir vários guitarristas excelentes se o resultado for apenas uma sequência de solos sem conexão.
MS Metal Agency: “The Truth Is Out There” retoma o caráter predominantemente instrumental, mas estabelece um diálogo direto entre a sua guitarra e a de Dallton Santos. Como nasceu essa composição e o que você buscou explorar tecnicamente e musicalmente nessa interação entre duas linguagens guitarrísticas diferentes? Houve algum recurso específico — como harmonização, alternância de frases, improvisação ou uso de diferentes timbres — que tenha sido fundamental para chegar ao resultado final?
Ricky: Essa música começou a partir de um riff que eu já tinha desenvolvido e que acabou servindo como ponto de partida. Naquele momento, o Dallton também tinha disponibilidade para participar de uma gravação, então achei interessante aproveitar a oportunidade.
Estruturei a música e reservei um espaço na parte final para a participação dele. Pedi que gravasse um solo realmente marcante, algo que acrescentasse uma personalidade diferente à composição. Inclusive, queria que fosse um solo que me desafiasse, daqueles que você escuta e depois fica com vontade de aprender a tocar [risos].
Quando trabalho com outros guitarristas, não tento fazer com que todos soem da mesma maneira. Cada músico possui suas influências, escolhas de frases, articulações e características técnicas. É essa diferença que torna a colaboração interessante. Em vez de pensar em disputa, prefiro a complementaridade. Às vezes, recebo o solo de um convidado e percebo que posso modificar uma parte minha para criar uma conexão melhor. O importante é que tudo funcione como uma única música.
MS Metal Agency: A temática de “The Truth Is Out There” está ligada ao desconhecido, ao cosmos e às perguntas que permanecem sem resposta. Em uma música instrumental, na qual não existe uma letra para conduzir diretamente a interpretação do ouvinte, quais elementos você considera fundamentais para transformar uma ideia abstrata como essa em uma narrativa musical?
Ricky: Eu gosto bastante de assuntos relacionados ao espaço, à possibilidade de existência de vida fora do nosso planeta, outras formas de inteligência e todas aquelas perguntas para as quais ainda não temos respostas definitivas. Foi esse universo de possibilidades que inspirou The Truth Is Out There.
Acho interessante trabalhar com esse tipo de conceito em uma composição instrumental porque você não precisa conduzir o ouvinte a uma interpretação específica. O título sugere uma ideia, mas cada pessoa pode imaginar algo diferente enquanto escuta.
Para mim, a construção dos temas, as mudanças de intensidade, os arranjos e a maneira como as guitarras se desenvolvem são elementos que ajudam a criar essa atmosfera. Não acredito que seja necessário traduzir literalmente cada conceito em uma passagem musical. Muitas vezes, basta transmitir uma sensação e permitir que o ouvinte construa sua própria interpretação.
MS Metal Agency: Sua música transita principalmente por Metal, Rock e Fusion, enquanto seu trabalho também demonstra uma preocupação constante em equilibrar técnica e musicalidade. Como você encara atualmente questões como velocidade, precisão, alternate picking, legato, tapping, bends, arpejos e improvisação? Existe alguma técnica que você considera especialmente importante para desenvolver uma identidade própria na guitarra?
Ricky: Acredito que todas essas técnicas tenham sua importância e possam ser utilizadas dependendo daquilo que a música pede. Velocidade, alternate picking, legato, tapping, bends, arpejos e improvisação são recursos que ampliam nossas possibilidades como guitarristas. Mas não considero que dominar uma técnica específica seja suficiente para desenvolver uma identidade própria.
O mais importante é saber como utilizar esses recursos musicalmente. Existem momentos em que uma passagem mais rápida funciona muito bem, assim como situações em que uma frase mais simples, com poucas notas, pode produzir um resultado mais interessante.
Nunca gostei da ideia de transformar a complexidade técnica em um objetivo por si só. Minhas músicas possuem trechos que não são triviais de tocar, mas não começo uma composição pensando que ela precisa ser extremamente difícil. A identidade surge da maneira como combinamos influências, desenvolvemos ideias e fazemos escolhas musicais. A técnica precisa estar a serviço da música, e não o contrário.
MS Metal Agency: Em entrevistas e materiais anteriores, você já destacou que não tem interesse em fazer da complexidade um objetivo por si só e que procura criar músicas que sejam prazerosas tanto de ouvir quanto de tocar. Como essa filosofia influencia seu processo de composição? Você costuma começar uma música a partir de um riff, de uma melodia, de uma progressão harmônica, de uma ideia técnica ou de uma atmosfera que deseja transmitir?
Ricky: Normalmente começo procurando linhas de bateria que despertem meu interesse. Vou experimentando algumas ideias, fazendo ajustes e, quando encontro uma base interessante, começo a desenvolver as guitarras e os baixos. Não tenho necessariamente uma estrutura inteira definida antes de começar. Prefiro deixar a música seguir seu próprio caminho.
Durante esse processo, costumo anotar aquilo que acredito que ainda pode ser melhorado. Nem sempre todas as ideias aparecem no momento da gravação, então frequentemente volto a partes praticamente prontas para avaliar se chegaram ao resultado esperado. Às vezes, uma pequena alteração em uma frase ou na transição entre trechos já faz bastante diferença.
Minha filosofia continua sendo a mesma: não componho pensando em fazer a música mais técnica ou difícil possível. As frases vão surgindo, experimento possibilidades e avalio se funcionam dentro do conjunto. Não adianta ter uma passagem tecnicamente impressionante se ela não acrescenta nada à composição. Quero fazer músicas prazerosas de tocar e agradáveis para quem ouve.
MS Metal Agency: Beast Mode, lançado em 2025, consolidou uma fase fortemente ligada ao Metal e à Fusion instrumental, enquanto os dois singles mais recentes apontam para uma ampliação considerável dessa linguagem. O que mudou na sua maneira de compor, produzir e enxergar a própria guitarra entre Beast Mode e o material que está sendo desenvolvido para o próximo álbum?
Ricky: Beast Mode foi um grande aprendizado, principalmente na composição e na maneira de desenvolver ideias dentro da música instrumental. A cada álbum, adquirimos uma percepção melhor de como distribuir os elementos, quanto tempo dedicar a determinado tema e em que momento desenvolver uma ideia ou seguir adiante. Também começamos a imaginar com mais clareza como aquilo que estamos gravando vai funcionar dentro da música pronta.
Nos dois singles mais recentes, procurei explorar possibilidades diferentes. A Pilgrimage to the Inner Light trouxe uma estrutura mais longa, elementos progressivos, vocais e vários guitarristas. Já The Truth Is Out There mantém uma proposta predominantemente instrumental, mas abre espaço para uma colaboração importante com o Dallton.
A principal mudança está nesse amadurecimento e na disposição de experimentar coisas novas, sem abandonar aquilo que sempre caracterizou meu trabalho. A guitarra continua sendo o elemento central, mas isso não significa repetir exatamente a mesma fórmula em todos os lançamentos.
MS Metal Agency: “A Pilgrimage to the Inner Light” e “The Truth Is Out There” funcionam como prévias de um próximo álbum de inéditas que parece representar uma nova etapa da sua carreira. O que você pode antecipar sobre esse futuro trabalho em termos de sonoridade, participações especiais, técnicas de guitarra, composição e possíveis novas experiências que ainda não apareceram nesses dois singles? E, olhando para essa nova fase, que tipo de artista você acredita que o público encontrará nesse próximo capítulo de RICKY DE CAMARGO?
Ricky: Neste momento, estou trabalhando com a possibilidade de lançar o próximo álbum em 2027. Normalmente gosto de produzir discos com algo entre sete e oito faixas e procuro manter a duração total próxima dos 30 minutos. Considerando que The Truth Is Out There e A Pilgrimage to the Inner Light já somam quase 15 minutos, acredito que seja possível seguir esse planejamento.
Em relação à sonoridade, quero continuar explorando aquilo que considero interessante musicalmente, sem ficar preso a uma fórmula específica. Os dois singles já mostram caminhos diferentes. Sobre novas participações e experiências, prefiro deixar as próximas composições indicarem o caminho.
Uma coisa curiosa é que normalmente começo a sentir vontade de produzir um novo disco quando chega uma época mais fria ou quando percebo que já passou tempo demais desde que apresentei algo novo [risos]. É quase como se surgisse naturalmente a necessidade de voltar a compor.
Quero observar como as coisas vão se desenvolver nesses últimos meses do ano e para onde as próximas músicas vão me levar. Se tudo caminhar bem, quem sabe não teremos alguma surpresa já no começo de 2027. Quanto ao artista que o público encontrará, acredito que será essencialmente o mesmo Ricky de Camargo, mas com mais experiência, novas ideias e a mesma vontade de continuar fazendo música.
Notícia mais antiga: RICKY DE CAMARGO: entra em processo avançado de composição do seu próximo álbum de inéditas »


