Resenha de CD originalmente publicada pelo blog Avalanche Sonora
Por Rodrigo Silva
Nota: 09.0/10.0
O álbum Favela, lançado em 15 de outubro de 2024, representa um importante passo na trajetória da brasileira TERRORCIDIO, banda originária de Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal. Em seu primeiro trabalho completo, o trio apresenta pouco mais de 30 minutos de música extrema, distribuídos entre 11 composições inéditas e três faixas bônus gravadas ao vivo. A proposta é apostar em uma combinação agressiva de Death Metal, Thrash Metal e Hardcore, mantendo uma identidade fortemente ligada à realidade das periferias brasileiras. Longe de qualquer tentativa de romantizar as dificuldades sociais, o grupo utiliza a música como instrumento de manifestação, transformando indignação, violência e conflitos cotidianos em combustível para composições diretas e contundentes.
A abertura com “Guerrilha 33” estabelece imediatamente o direcionamento musical do registro: riffs secos, andamento acelerado e uma bateria que reforça a sensação de urgência. “Possessão”, por sua vez, figura entre os momentos mais interessantes do repertório, principalmente pela maneira como aproxima a brutalidade do Death Metal da energia explosiva do Hardcore. Já a faixa-título merece atenção especial por concentrar a essência temática da obra, com uma abordagem pesada e combativa que traduz a realidade retratada pelo grupo. Outros bons momentos aparecem em “Circo dos Porcos”, igualmente agressiva, e “Agony”, responsável por encerrar o bloco de inéditas sem perder intensidade.
Um dos principais responsáveis pela personalidade sonora do álbum é Paulo Heavy, que assume simultaneamente o baixo e os vocais. Sua interpretação merece destaque pela alternância entre screams e guturais, conduzidos com intensidade e agressividade. Em “Possessão”, especialmente, sua performance encontra um terreno bastante favorável, acompanhando as mudanças de dinâmica e reforçando o caráter extremo da composição. A presença vocal não depende de grandes variações ou recursos sofisticados: a força está justamente na entrega visceral e na coerência com a proposta musical.
Na guitarra, Wesley desempenha um papel fundamental na construção da identidade de Favela. Seus riffs são cortantes, objetivos e suficientemente pesados para sustentar a proposta sem recorrer a demonstrações técnicas desnecessárias. Essa escolha favorece a dinâmica das composições e permite que a agressividade apareça como elemento central. Ao lado dele, Graciel Cavalcante, na bateria, garante a sustentação rítmica do repertório, alternando velocidade e intensidade com uma execução que valoriza os momentos mais extremos. A combinação entre os três músicos demonstra entrosamento e compreensão da sonoridade que pretendem desenvolver.
No balanço geral, Favela é um trabalho que encontra sua maior qualidade na sinceridade da proposta e na capacidade de transformar inquietações sociais em música pesada. A produção preserva a crueza característica do underground, mas mantém os instrumentos suficientemente definidos, enquanto a inclusão de três registros ao vivo — “Crenças Importunas”, “Mate ou Morra e Chuta o Bicho Morto” e “Tormento” — acrescenta um interessante complemento à edição. É verdade que algumas passagens poderiam explorar construções mais variadas, especialmente diante da quantidade de músicas extremamente curtas. Ainda assim, a objetividade também faz parte da identidade do disco. Sem pretensões de reinventar o Metal extremo, a TERRORCIDIO entrega um registro consistente, combativo e conectado às suas origens. Mais do que um título provocativo, Favela representa uma declaração de identidade de uma banda que utiliza o peso e a agressividade para dar voz à própria realidade.
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