Resenha de CD originalmente publicada pelo blog Avalanche Sonora
Por Rodrigo Silva
Nota: 09.5/10.0
Formada em Mauá, na região metropolitana de São Paulo, em 2022, a STRIGAH chega ao seu primeiro álbum completo com Zoetia, lançado em 29 de maio de 2026 pelo selo Coffinjoe Records. Depois de apresentar suas primeiras experimentações no EP A Natureza e o Sistema (2023) e desenvolver sua identidade por meio de singles como “Xamanismo Urbano”, “Espírito da Cidade” e “Extinção Humana Voluntária”, o quarteto amplia consideravelmente suas possibilidades musicais. São dez composições distribuídas em aproximadamente 47 minutos, nos quais o Modern Metal encontra elementos progressivos, industriais e experimentais. O resultado é uma obra ambiciosa, que não se limita à combinação de estilos, mas procura estabelecer uma linguagem própria, sustentada por grooves complexos, polirritmias, mudanças inesperadas de andamento e passagens atmosféricas.
A dimensão temática é um dos aspectos mais interessantes do trabalho. O título, criado a partir da união das palavras gregas zoe (vida) e goetia (feitiço), sintetiza a ideia de um encantamento relacionado à existência e conduz uma narrativa que atravessa diferentes ambientes e conflitos. “A Propriedade é Roubo” merece atenção pela combinação de riffs pesados, mudanças rítmicas e uma interpretação vocal incisiva, acompanhando uma denúncia contra a exploração territorial, o garimpo e a devastação ambiental. “Espírito da Cidade”, por sua vez, transporta o ouvinte para um cenário de violência urbana, repressão policial e desigualdade social. Já “Xamanismo Urbano” se destaca pela abordagem anticolonial, aproximando a agressividade musical de reflexões sobre ancestralidade, genocídio indígena e destruição da Amazônia. Na guitarra, Matheus Figueredo demonstra criatividade ao explorar diferentes texturas, alternando passagens densas e riffs contundentes sem comprometer a identidade das composições.
À frente dos vocais, Kaio Felipe apresenta uma interpretação que combina agressividade, expressividade e diferentes nuances, contribuindo diretamente para a atmosfera inquietante do repertório. Sua participação ganha especial relevância em “Maldito Demiurgo!”, composição de mais de seis minutos que mergulha em referências gnósticas para abordar questões relacionadas ao ego, aos desejos humanos e à divisão interior. Outro momento interessante é “Florestas Virtuais”, cuja proposta estabelece um paralelo entre a degradação ambiental e o distanciamento provocado pela dependência tecnológica. A maneira como a banda trabalha as mudanças de dinâmica e as camadas atmosféricas nessas duas músicas demonstra preocupação em fazer com que os arranjos dialoguem com os assuntos abordados. Em entrevista concedida ao portal ReiDjou!, Kaio definiu a essência do grupo como o desejo de fazer arte e levar o público a outro lugar, uma declaração que encontra correspondência na proposta conceitual deste primeiro álbum.
Samanta Tica, responsável pelo baixo, também exerce papel importante na construção da sonoridade. Sua execução oferece sustentação às composições, acompanhando as variações de andamento e os grooves que constituem uma das principais características do disco. Em vez de permanecer restrita a uma função de apoio, a linha instrumental participa da dinâmica dos arranjos e contribui para a densidade das passagens mais experimentais. Essa característica aparece com propriedade em “Eu Sou Tetsuo”, que conta com a participação de Unholy Harakiri e explora imagens de dissociação, violência urbana e transformação corporal. Na sequência, “O Voo do Simorgh”, breve composição instrumental inspirada em uma figura mitológica persa, proporciona uma mudança de atmosfera e prepara o terreno para “A Quebra dos Vasos”, encerramento de quase oito minutos que recorre à cabala judaica e ao conceito de reparação espiritual.
Na bateria, Eleonardo de Paula demonstra segurança ao acompanhar as estruturas menos convencionais do repertório, alternando passagens vigorosas, acentuações complexas e variações rítmicas que ajudam a evitar a previsibilidade. A produção de Yukio Hara, responsável pela mixagem e masterização, também merece reconhecimento por preservar a definição dos instrumentos mesmo diante das camadas mais carregadas. Naturalmente, a densidade das composições e a quantidade de informações presentes em determinados momentos podem exigir mais de uma audição, sobretudo de quem prefere estruturas tradicionais e refrões imediatos. Entretanto, essa característica não compromete a proposta; pelo contrário, evidencia a disposição da STRIGAH em explorar caminhos menos convencionais. Zoetia é uma estreia consistente, instigante e conceitualmente bem construída, na qual crítica social, experimentação musical e espiritualidade encontram espaço para coexistir. Mais do que apresentar dez músicas, o quarteto entrega uma obra que desafia convenções e demonstra personalidade suficiente para conquistar seu próprio espaço no cenário do Metal brasileiro.
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