Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Fullrock
Por Jeferson di Pádua
Nota: 08.0/10.0
Formada em São Paulo, em 2020, a TIMES FOR SAVE vem construindo sua trajetória dentro do Metal Moderno a partir de uma combinação entre influências de New Metal e Metalcore e letras voltadas à espiritualidade, aos conflitos humanos e à esperança. Depois dos EPs Ossos pra Vida (2021) e O Sacrifício (2023), além dos singles “Descanso” (2020) e “O Guarda de Israel” (2024), o trio apresenta A Última Missão, seu terceiro EP, lançado em 9 de outubro de 2026. Com cinco composições, o trabalho aprofunda a identidade temática do grupo e demonstra uma preocupação em estabelecer conexões entre música pesada, reflexão existencial e mensagens de fé. A proposta conceitual confere unidade ao repertório, embora sua abordagem temática bastante específica também delimite o público com o qual a banda pretende dialogar.
Jeff Costa, responsável pelos vocais, guitarra e também pela arte da capa, ocupa posição central na construção da identidade artística da TIMES FOR SAVE. Essa participação multifuncional evidencia seu envolvimento não apenas com a elaboração musical, mas também com a apresentação visual do projeto. A faixa-título, “A Última Missão”, funciona como principal porta de entrada para o conceito do EP e já havia sido apresentada anteriormente como single. A composição sintetiza a proposta do grupo ao aproximar peso, melodia e conteúdo espiritual, estabelecendo as bases para o desenvolvimento das demais músicas. É uma escolha acertada para abrir o trabalho, sobretudo por apresentar de maneira direta os elementos que orientam sua identidade.
Um dos momentos mais particulares do repertório é “Adonai Melech”, versão de uma composição presente no Sidur Messiânico. A escolha acrescenta uma dimensão litúrgica ao conjunto e demonstra a disposição da banda em buscar referências além do universo habitual do Metal, incorporando elementos ligados à tradição religiosa messiânica. Na sequência, “Olhos de Adam” amplia o percurso conceitual do EP, mantendo a temática espiritual como elemento condutor. Jon Ferreira, na bateria, e Carlos Junior, no baixo, formam a base instrumental que sustenta essa proposta, integrando a seção rítmica responsável por dar consistência à formação em trio. A presença dos dois músicos é fundamental para a dinâmica coletiva, especialmente em um trabalho que procura equilibrar intensidade e conteúdo reflexivo.
“O Retorno do Ungido” chama atenção pela força de seu título e pela conexão com o universo conceitual desenvolvido ao longo do EP, remetendo à expectativa de redenção e ao imaginário messiânico. Já “Gritos no Silêncio”, responsável pelo encerramento, apresenta uma imagem bastante expressiva, explorando simbolicamente o contraste entre a manifestação da angústia humana e a ausência de respostas. A sequência das duas faixas ajuda a estabelecer um fechamento coerente para o repertório, reforçando a ligação entre conflitos interiores, espiritualidade e esperança. Embora não seja possível estabelecer diferenças específicas de execução, solos ou mudanças de andamento sem uma audição técnica verificável das gravações, a seleção dos títulos evidencia uma preocupação em manter a unidade temática do lançamento.
Gravado no Rodolfo Studio, sob a responsabilidade de Rodolfo Ferreira, A Última Missão representa mais um passo na evolução da TIMES FOR SAVE, que mantém sua proposta de utilizar o Metal como veículo para transmitir mensagens de fé e abordar experiências humanas. O trio demonstra coerência ao desenvolver um trabalho no qual a identidade musical e a orientação conceitual caminham juntas, sem tratar a espiritualidade como um elemento meramente decorativo. A opção por um repertório inteiramente alinhado a essa perspectiva confere personalidade ao EP, embora também exija do ouvinte identificação com sua temática. No conjunto, o lançamento consolida a direção artística escolhida por Jeff Costa, Jon Ferreira e Carlos Junior e amplia a discografia de uma formação que segue buscando seu espaço na cena independente brasileira.
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