Resenha de CD originalmente publicada pelo blog Avalanche Sonora
Por Rodrigo Silva
Nota: 09.5/10.0
Formada em Porto Alegre (RS), em 2020, a NEPTUNN chega ao primeiro álbum completo com Parallaxis, lançamento que representa um importante avanço na trajetória do quinteto gaúcho. Disponibilizado pela Old Shadows Records, em 10 de outubro de 2026, o trabalho reúne nove composições e consolida uma identidade fundamentada no Technical Death Metal, combinando agressividade, precisão instrumental e estruturas rítmicas elaboradas. A história do grupo começou a ganhar forma com o EP (Re)Existence (2024), registro que apresentou seis faixas e estabeleceu as bases de uma sonoridade influenciada tanto pelo Death Metal clássico quanto por abordagens contemporâneas. Agora, a banda amplia suas possibilidades sem abandonar a essência extrema que caracteriza sua proposta. Outro aspecto interessante está na temática, que explora conceitos relacionados à ciência, à matemática, ao espaço sideral e à existência, conferindo ao repertório uma dimensão conceitual que ultrapassa a brutalidade sonora.
A abertura com “A Bereft Memoir” estabelece o direcionamento musical do álbum por meio de uma introdução instrumental que prepara o terreno para a complexidade das composições seguintes. Em “Invariant Pulse”, a NEPTUNN demonstra sua capacidade de trabalhar mudanças de andamento, riffs intrincados e acentuações rítmicas sem comprometer o peso. A bateria assume papel fundamental nessa construção, exigindo precisão e controle para acompanhar as constantes variações. “Neptunn Rises”, por sua vez, combina passagens agressivas com uma condução instrumental que evidencia o entrosamento dos integrantes. Outro destaque é “Fractal Self-Similarity”, cuja construção dialoga diretamente com a ideia de padrões matemáticos que se repetem em diferentes escalas. A faixa reforça o caráter cerebral do repertório e demonstra como o grupo consegue transformar referências conceituais em estruturas musicais interessantes, sem perder a contundência.
Na guitarra, Rafael Giovanoli, idealizador do projeto, e Franklin Nunes formam uma dupla responsável por boa parte da identidade sonora do álbum. Os músicos alternam riffs de execução elaborada, passagens velozes e construções mais cadenciadas, explorando as possibilidades do gênero sem transformar o virtuosismo em um fim em si mesmo. “Odyssey, Pt. 1” e “Odyssey, Pt. 2” merecem atenção especial por funcionarem como partes complementares de uma jornada musical de inspiração cósmica. A divisão em dois capítulos permite desenvolver diferentes atmosferas, enquanto as guitarras conduzem as composições por caminhos que valorizam tanto a técnica quanto a intensidade. A baixista Nathália Ernst também merece reconhecimento, especialmente pela consistência com que acompanha as mudanças estruturais e estabelece a conexão entre guitarras e bateria. Sua participação contribui para a densidade dos arranjos e reforça o equilíbrio instrumental necessário para que as composições mantenham sua força.
Nos vocais, Dienifer Vieira apresenta uma interpretação agressiva e expressiva, acrescentando personalidade às composições e acompanhando a intensidade exigida pelo repertório. Sua evolução foi destacada na cobertura do show de lançamento realizada pelo portal Cogumelo em Cena, que também ressaltou o entrosamento da formação atual. Na bateria, Arthur Tomazelli demonstra impressionante domínio das estruturas complexas, alternando velocidade, precisão e força nas passagens mais exigentes. Seu desempenho ganha evidência em “Invariant Pulse”, justamente pela necessidade de acompanhar as constantes mudanças rítmicas sem comprometer a fluidez. A entrevista concedida por Dienifer, Rafael e Nathália ao podcast Cena Rock, do Correio do Povo, também oferece um panorama interessante sobre a trajetória do grupo e as expectativas em torno do primeiro full-length. A formação reúne músicos com experiências anteriores na cena gaúcha, e essa bagagem individual se reflete na segurança e na qualidade da execução coletiva.
Entre os momentos finais, “Transcendence”, anteriormente apresentada como single, funciona como uma boa síntese da proposta musical do disco, equilibrando atmosfera, agressividade e complexidade instrumental. Já a faixa-título, “Parallaxis”, concentra elementos importantes da identidade construída pelo quinteto, com uma abordagem que valoriza a intensidade e a elaboração dos arranjos. O encerramento com “Resignify” estabelece uma ligação com o EP (Re)Existence, recuperando uma composição que ajuda a conectar as diferentes etapas da discografia. A produção visual também merece menção: a capa foi ilustrada pelo próprio Rafael Giovanoli, enquanto o videoclipe da faixa-título, produzido pelo Selo Bruto, amplia o universo artístico do lançamento. Naturalmente, a quantidade de mudanças rítmicas e a densidade dos arranjos podem exigir algumas audições para uma assimilação completa, mas esse aspecto também constitui parte do apelo do trabalho. Parallaxis é um álbum consistente, tecnicamente elaborado e suficientemente diversificado para demonstrar que a NEPTUNN encontrou um caminho promissor dentro do Death Metal brasileiro.
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