Resenha: novo álbum da Uganga é avaliado pela equipe do portal Subterrâneo Metal Punk
Postado em 14/10/2026


Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Subterrâneo Metal Punk

Por Johnny Freire

Nota: 08.5/10.0

O oitavo álbum de estúdio do UGANGA, Ganeshu, lançado em 9 de maio de 2025, constitui um testemunho eloquente da capacidade de reinvenção de uma das formações mais singulares do Crossover brasileiro. Com dez faixas distribuídas em aproximadamente 26 minutos, o trabalho condensa mais de três décadas de experiência em uma obra concisa, visceral e deliberadamente avessa a compartimentações estilísticas. O alicerce permanece assentado no encontro entre Thrash Metal, Hardcore e Groove Metal, mas a arquitetura sonora incorpora, sem reverência excessiva às convenções, elementos de Dub, Rap, psicodelia e texturas eletrônicas. A produção, compartilhada entre Manu Joker e Gustavo Vazquez, privilegia uma sonoridade orgânica e incisiva; a decisão de registrar a base instrumental de maneira conjunta, no Rocklab Studio, em Anápolis (GO), contribui para preservar a urgência performática que caracteriza o grupo no palco. Mais do que uma sucessão de composições agressivas, Ganeshuse apresenta como o registro de uma transição artística na qual a experiência acumulada não se converte em acomodação, mas em combustível para novas experimentações.

A centralidade criativa de Manu “Joker” Henriques, vocalista, percussionista e fundador do UGANGA, manifesta-se tanto na interpretação vocal quanto na concepção temática que atravessa o repertório. Sua trajetória, que inclui a participação no histórico Sarcófago, confere-lhe uma perspectiva privilegiada sobre a evolução da música extrema brasileira, mas Ganeshu não se sustenta apenas no prestígio de seu passado: o músico emprega a experiência acumulada para articular indignação social, espiritualidade e resistência em composições de notável contundência. “A Profecia”, responsável por inaugurar o percurso propriamente musical do álbum após a introdução atmosférica “Igarapés”, sintetiza essa disposição combativa ao combinar a aspereza do Hardcore com a velocidade e a agressividade do Thrash Metal. A colaboração de Paulo “Bigfoot”, do Delinquentes, na composição reforça a origem coletiva da faixa, cuja estrutura direta e energética ajuda a explicar sua escolha para abrir as apresentações da turnê. Em “Confesso”, por sua vez, a abordagem vocal encontra uma base instrumental mais dinâmica, evidenciando como o discurso de Manu se integra à arquitetura musical sem reduzir as canções a meros veículos para as letras.

Nas guitarras, Jean Pagani desempenha uma função determinante na construção das texturas que distinguem o álbum, alternando riffs compactos, passagens velozes e soluções rítmicas que privilegiam o impacto físico sem negligenciar as nuances composicionais. “Exu Não Passa Pano” figura entre os momentos mais contundentes do repertório: o fraseado incisivo, a pulsação inclinada ao Hardcore e o refrão de assimilação imediata convergem para uma composição que parece concebida para incendiar a interação com o público. A faixa também evidencia a dimensão provocativa da escrita do UGANGA, cuja crítica não se limita à contestação genérica, mas se articula a referências culturais e espirituais presentes no universo conceitual do disco. Em outra direção, a faixa-título, “Ganeshu”, amplia o campo expressivo da banda ao reunir elementos apresentados ao longo do álbum, incluindo variações de andamento, ritmos regionais e uma progressão que desemboca em um desfecho mais extremo. Sua duração, superior à das demais composições, permite que as diferentes influências coexistam sem que a música perca inteiramente a tensão que sustenta o conjunto. É justamente nessa disposição para aproximar linguagens distintas que o trabalho encontra parte de sua força — embora a multiplicidade de referências demande uma escuta atenta para que seus pontos de convergência sejam plenamente percebidos.

A seção rítmica, formada por Juninho Silva na bateria e Raphael “Ras” Franco no baixo, confere ao registro a sustentação necessária para que a experimentação não dissolva sua contundência. Juninho demonstra especial sensibilidade às mudanças de andamento e às quebras rítmicas, elementos que enriquecem “Confesso” e “Tem Fogo!”, esta última um dos singles mais representativos da faceta direta e expansiva do disco. A composição articula cadência pesada, acentos próximos do Rap e passagens que favorecem o impacto coletivo, enquanto a execução do baterista mantém a música em movimento sem recorrer a demonstrações técnicas gratuitas. Ras, por sua vez, estabelece uma base grave que reforça a densidade das guitarras sem comprometer a definição instrumental. A liberdade estética da banda encontra expressão particularmente reveladora em “Psicoraio Dub”, cuja aproximação ao Dub e aos elementos eletrônicos poderia soar deslocada em um repertório convencional de Metal, mas aqui amplia o vocabulário do grupo e desafia expectativas estabelecidas. Já “Pressentimento”, que encerra o álbum com participações de Jonas Pheer, O Eremita Roots e Isabela Melo, incorpora novas inflexões e aproximações ao Rap, reafirmando a recusa do UGANGA em tratar o Crossover como uma fórmula imutável. A combinação entre execução coesa e abertura estilística constitui, assim, um dos principais méritos do trabalho.

A própria denominação Ganeshu sintetiza o horizonte conceitual do álbum: segundo Manu Joker, o nome nasce de uma fusão simbólica entre Ganesha, figura da tradição hindu associada à remoção de obstáculos e à abertura de caminhos, e Exu, entidade de grande relevância nas tradições religiosas afro-brasileiras. Essa aproximação não funciona apenas como ornamento ou curiosidade nominal; ela dialoga com a trajetória de uma banda que, ao longo de mais de três décadas, construiu sua identidade pela recusa de fronteiras rígidas, tanto no plano musical quanto no temático. Natureza, ancestralidade, espiritualidade, resistência e crítica social integram esse universo, no qual a agressividade sonora convive com referências culturais que ultrapassam os limites habituais do Metal. A capa, concebida por Artur Fontenelle a partir de uma ideia de Manu, acompanha essa intenção de conferir ao disco uma identidade visual e conceitual própria. Sob uma perspectiva crítica, Ganeshu talvez não alcance uniformidade absoluta em todas as suas transições, mas sua brevidade impede que a experimentação se torne excessivamente dispersa, e a sequência de dez faixas favorece uma audição integral — abordagem que o próprio vocalista recomenda em entrevista. Ao registrar uma formação específica em meio a mudanças internas e apresentar uma sonoridade que conjuga brutalidade, inquietação e pluralidade, o oitavo álbum do UGANGA reafirma a vitalidade de um projeto independente que compreende a tradição não como limite, mas como plataforma para continuar abrindo caminhos.

 
Categoria/Category: Clipping

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