Resenha de CD originalmente publicada pelo blog Avalanche Sonora
Por Rodrigo Silva
Nota: 08.0/10.0
Com mais de três décadas de estrada e uma sólida reputação no cenário autoral, a veterana formação mineira volta a dar cartas ao apresentar seu oitavo trabalho de estúdio. Em “Ganeshu”, a UGANGA celebra o início de um novo ciclo com um álbum visceral, direto e experimental que condensa peso e reflexão em cerca de meia hora de música. Fiel à sua identidade marcada pelo crossover, o grupo amalgama thrash, hardcore e groove metal a temáticas espirituais, referências à Umbanda e contundentes críticas sociais. Sob a produção refinada do experiente Gustavo Vazquez em parceria com a própria banda, o resultado é uma obra limpa e orgânica que exala vitalidade do primeiro ao último segundo.
A faixa que abre os caminhos de forma avassaladora é “A Profecia”, uma síntese da postura combativa do quinteto. Impulsionada pelo vocalista e fundador Manu “Joker” Henriques, a canção combina a crudeza do hardcore com trechos velozes típicos do thrash. A interpretação visceral do líder expõe o vigor renovado do grupo, entregando linhas vocais rasgadas que servem como guia para a mensagem antifascista e libertária que atravessa todo o repertório do disco.
Na sequência, destaca-se “Confesso”, uma composição marcante que revela a maturidade técnica da nova fase do conjunto. A dinâmica instrumental ganha corpo através do entrosamento afiado entre as guitarras de Jean Pagani e demais instrumentos. O guitarrista constroe riffs encorpados e trabalhados no groove, intercalando bases densas e bases aceleradas com precisão milimétrica, o que confere uma textura moderna sem perder a sonoridade clássica do heavy metal noventista.
Outro grande trunfo do registro é o single “Tem Fogo!”, que se afirma instantaneamente como um dos momentos mais empolgantes da obra. A estrutura rítmica da música ganha sustentação na cozinha firme do baixista Raphael “Ras” Franco e na bateria potente de Juninho Silva, cujas viradas bem encaixadas instigam a abertura de mosh pits nos shows. A faixa sintetiza o lado mais direto da banda, aliando cadência pesada e refrão marcante a uma atmosfera eletrizante.
Além do trio de destaques, a audição se enriquece com peças ousadas como “Psicoraio Dub” e a enérgica “Exu Não Passa Pano”, demonstrando que o conformismo não faz parte da bagagem do conjunto. Ao integrar novos integrantes e expandir seus horizontes conceituais, a UGANGA reafirma a sua relevância e prova que a longevidade no underground exige coragem para se reinventar. “Ganeshu” se consolida, assim, como um registro necessário, enérgico e indispensável para os apreciadores da música pesada nacional.
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