Resenha de CD originalmente publicada pelo site Cultura em Peso
Por Sérgio “Murray” Martins
Nota: 08.5/10.0
Depois de mais de três décadas de estrada, mudanças profundas na formação e uma boa dose de incerteza sobre os rumos da própria banda, a UGANGA chega a “Ganeshu” com aquela velha disposição de quem simplesmente se recusa a ficar parado. E talvez seja justamente esse o grande barato do disco: apesar de carregar toda a experiência acumulada por Manu Joker e companhia, ele não soa como uma banda vivendo de passado ou tentando repetir fórmula. São dez faixas distribuídas em cerca de 26 minutos, e o negócio é direto ao ponto, sem enrolação. O Crossover continua sendo a espinha dorsal, mas Thrash Metal, Hardcore, Groove, Dub, Rap, psicodelia e elementos eletrônicos entram na brincadeira sem pedir licença. O resultado é um álbum pesado, inquieto e, em alguns momentos, surpreendente, daqueles que ficam ainda melhores depois de algumas audições.
“A Profecia” já chega chutando a porta, misturando a urgência do Hardcore com o peso do Thrash e deixando bem claro que a UGANGA não voltou para fazer média. A bateria de Juninho Silva dá uma senhora sustentação para os riffs de Jean Pagani, enquanto Manu Joker despeja seus vocais com aquela agressividade característica, mas sem transformar tudo numa gritaria indistinta. “Confesso”, na sequência, mostra outro lado interessante do disco: há mais espaço para groove, quebradas de andamento e uma cozinha realmente afiada. É uma faixa que cresce justamente por não depender apenas da velocidade. E isso ajuda a entender a proposta de “Ganeshu”: a banda sabe ser brutal, mas também sabe quando segurar a mão e deixar o peso trabalhar de outra maneira.
“Tem Fogo!” é provavelmente um dos momentos mais fáceis de grudar na cabeça, principalmente pela combinação entre peso, groove e elementos que escapam completamente do Metal tradicional. O interessante é que a experiência não parece uma colcha de retalhos: mesmo quando o Rap e os breakdowns aparecem, a identidade da UGANGA continua intacta. “Exu Não Passa Pano” segue essa linha, mas aposta ainda mais naquele clima de moshpit que parece ter sido feito sob medida para os palcos. O refrão é daqueles que pedem participação da galera, enquanto as guitarras e a bateria deixam tudo com cara de pancadaria organizada. E talvez seja esse um dos maiores méritos do disco: as experiências sonoras não estão ali apenas para mostrar que os caras conseguem fazer diferente; elas realmente servem às músicas.
A partir de “Psicoraio Dub”, “D.R. Ones” e da própria faixa-título, o álbum fica ainda mais interessante. “Psicoraio Dub” quebra o ritmo e coloca o ouvinte diante de uma UGANGA que flerta abertamente com o Dub e a eletrônica, enquanto “D.R. Ones” funciona como um pequeno interlúdio antes de “Ganeshu”, a faixa mais longa e uma das mais completas do trabalho. Nela, praticamente todas as cartas são colocadas sobre a mesa: riffs pesados, groove, ritmos regionais, momentos mais contidos e uma conclusão mais extrema. O título do disco também não é gratuito, já que Manu Joker criou “Ganeshu” como uma fusão simbólica entre Ganesha e Exu, duas figuras associadas à abertura de caminhos e à remoção de obstáculos. Musicalmente, a ideia combina perfeitamente com uma banda que também constrói sua identidade a partir da mistura de mundos diferentes.
E é justamente por isso que “Ganeshu” funciona tão bem como retrato de uma nova fase. “Pressentimento”, que encerra o álbum com participações de Jonas Pheer, O Eremita Roots e Isabela Melo, ainda mostra a disposição da UGANGA para atravessar fronteiras e incorporar o Rap à sua linguagem sem perder o peso acumulado durante décadas. Claro, quem espera um disco de Crossover absolutamente tradicional pode estranhar algumas dessas escolhas, e talvez seja necessário mais de uma audição para entrar completamente no clima. Mas, sinceramente, ainda bem que é assim. “Ganeshu” não foi feito para agradar quem precisa colocar tudo dentro de uma caixinha. É um trabalho curto, bruto, criativo e cheio de personalidade, que transforma as turbulências vividas pela banda em combustível. No fim das contas, a UGANGA não apenas sobreviveu às mudanças: voltou delas mais perigosa.
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