Resenha de CD originalmente publicada pelo site Cultura em Peso
Por Sérgio “Murray” Martins
Nota: 08.0/10.0
A BURIAL GARDEN nos apresenta o seu primeiro EP, “Getting Nowhere”, revelando um registro que funciona como uma espécie de cartão de visitas para uma banda ainda jovem, mas que já demonstra preocupação em construir uma identidade própria. Formado em Fortaleza (CE), em 2023, o grupo surgiu reunindo influências de Hard Rock, Heavy Metal, Punk e Metal Alternativo, a partir da parceria entre um engenheiro e professor universitário paulista e um jovem estudante de Física cearense. Depois de um período dedicado a demos, gravações caseiras e apresentações na cena autoral de Fortaleza, o quarteto transforma essa experiência em quatro faixas que equilibram peso, atmosferas densas e uma pegada introspectiva. O EP foi lançado digitalmente em 15 de maio de 2026, com produção da própria banda em parceria com Babal, no Babal Studio, e distribuição da Tratore Music.
“White Snow” abre o trabalho estabelecendo rapidamente essa combinação entre agressividade e clima. Com 4min41s, a faixa aposta em uma construção que não depende apenas de velocidade para soar pesada, privilegiando também texturas e mudanças de atmosfera. A composição é creditada a Loreno e Paulo, dupla que aparece novamente em “Joy Pills” e “St. Braz”, indicando uma participação importante no núcleo criativo do EP. Essa preocupação em trabalhar diferentes nuances está diretamente relacionada à proposta declarada pela BURIAL GARDEN de explorar composições introspectivas e temas ligados às experiências pessoais de seus integrantes. Ansiedade, ambição, ganância, vaidade, sonhos e conflitos internos fazem parte desse universo lírico, enquanto o próprio conceito do nome da banda — “Jardim de Sepultamento” — remete aos cemitérios como espaços de memória, reflexão e contemplação.
Se “White Snow” apresenta a atmosfera do EP, “Joy Pills” aprofunda sua faceta mais inquieta. Seus mais de cinco minutos permitem que a BURIAL GARDEN desenvolva melhor as ideias musicais sem precisar correr para entregar tudo de uma vez. É justamente aí que a proposta do grupo ganha personalidade: em vez de encaixar suas referências em uma única fórmula, a banda procura fazer Hard Rock, Heavy Metal, Punk e Metal Alternativo conversarem dentro do mesmo repertório. “St. Braz”, por sua vez, fecha o EP com outra composição assinada por Loreno e Paulo e reforça essa característica mais contemplativa. As duas faixas ajudam a mostrar que a BURIAL GARDEN não está preocupada somente em soar pesada, mas também em criar uma ambientação compatível com os assuntos abordados em suas letras.
“Depths Ascent” talvez seja o momento mais interessante para observar o trabalho coletivo da formação. Com apenas pouco mais de três minutos, é a única composição do EP creditada a Loreno, Paulo, Bruno e Tyago, o que aponta para uma construção mais compartilhada entre os músicos. A faixa também quebra um pouco a predominância autoral presente nas demais canções e funciona como uma espécie de síntese da proposta do grupo: peso, concisão e diferentes referências convivendo sem que uma delas precise dominar completamente o resultado. Não há informações públicas suficientes para atribuir com segurança funções instrumentais individuais a Bruno e Tyago sem correr o risco de inventar dados, mas o crédito conjunto deixa claro que ambos participaram diretamente da composição dessa faixa. Já na parte técnica, a produção realizada pela própria BURIAL GARDEN ao lado de Babal, no Babal Studio, contribui para manter o EP ligado às raízes independentes do grupo, sem perder a preocupação com acabamento.
No balanço final, “Getting Nowhere” cumpre bem a função de apresentar a BURIAL GARDEN ao público e, principalmente, mostra que existe espaço para crescimento a partir de uma base já relativamente definida. O EP poderia se beneficiar, em trabalhos futuros, de uma exploração ainda maior das diferenças entre as faixas e de momentos em que cada músico pudesse assumir protagonismo mais evidente, mas sua curta duração evita excessos e deixa a audição objetiva. A participação da banda no episódio #213 do podcast Carolina Indica, em maio de 2026, serviu justamente para discutir trajetória, processo de composição e identidade sonora, além de colocar em evidência a cena underground cearense da qual o grupo faz parte. Em “Getting Nowhere”, a BURIAL GARDEN dá um primeiro passo consistente: ainda há muito caminho para percorrer, mas o grupo já encontrou uma maneira interessante de transformar inquietações pessoais, referências variadas e uma atmosfera carregada em um repertório que aponta para uma identidade própria.
Notícia mais antiga: Resenha: novo álbum da Strigah é destacado no site Cultura em Peso »


