Resenha de CD originalmente publicada pelo site Cultura em Peso
Por Sérgio “Murray” Martins
Nota: 09.0/10.0
“Lie” representa um importante passo na consolidação da identidade artística de ADNA MELAN, ao reunir elementos de Gothic Rock, Dark Alternative e nuances de Metal em uma composição essencialmente introspectiva. Com pouco mais de cinco minutos, o single aposta em uma atmosfera densa, melancólica e envolvente, mas sem transformar sua carga emocional em um exercício excessivamente dramático. A faixa encontra justamente na contenção uma de suas principais virtudes, construindo tensão gradualmente e permitindo que cada elemento tenha espaço dentro do arranjo. O resultado é uma obra acessível, porém suficientemente sombria para estabelecer uma personalidade própria.
A composição ganha força pela maneira como ADNA MELAN articula suavidade e peso. A artista explicou que escreveu inicialmente letra e melodia, desenvolvendo posteriormente uma demo doméstica a partir da qual o produtor André Paixão contribuiu para a estruturação e o aprimoramento do arranjo. A própria cantora também se aventurou pela guitarra durante o processo, concebendo passagens específicas, enquanto outras participações foram incorporadas à construção instrumental. Esse percurso ajuda a compreender por que “Lie” soa pessoal mesmo quando dialoga claramente com referências consolidadas do universo gótico e alternativo. Há, portanto, uma combinação interessante entre espontaneidade composicional e acabamento profissional.
Se a arquitetura instrumental estabelece o clima, é a interpretação vocal que concentra boa parte do impacto do single. O timbre delicado de ADNA MELAN contrasta com a densidade emocional da composição, criando uma dualidade bastante eficiente entre fragilidade e angústia. Em vez de recorrer a exageros interpretativos, a cantora trabalha com uma abordagem mais controlada, o que torna a sensação de vulnerabilidade ainda mais convincente. A produção regravada, mixada e masterizada por Pablo Greg contribui para esse equilíbrio ao preservar a inteligibilidade das camadas e favorecer a presença da voz sem descaracterizar a atmosfera sombria pretendida.
Outro mérito de “Lie” está na coerência entre forma e conteúdo. A letra aborda conflitos internos, sentimentos de culpa, angústia, desconfiança e a necessidade de romper com mecanismos de negação e isolamento, transformando experiências emocionalmente complexas em uma narrativa de busca por superação e cura. Essa dimensão também encontra correspondência na identidade visual do lançamento: a fotografia da capa, produzida durante as gravações do videoclipe, utiliza o contraste entre preto e branco e a presença das rosas para representar dor, esperança, fragilidade e efemeridade. Som e imagem, dessa maneira, trabalham em conjunto para ampliar a experiência proposta pela artista.
Embora “Lie” não tenha como principal objetivo reinventar o Gothic Rock ou apresentar estruturas radicalmente inovadoras, sua força está justamente na capacidade de transformar referências conhecidas em uma expressão coerente e pessoal. A faixa demonstra amadurecimento, domínio crescente da linguagem que ADNA MELAN pretende desenvolver e, principalmente, uma identidade que pode ser aprofundada em trabalhos futuros. Como ponto de evolução, ainda existe espaço para ampliar a variedade dinâmica e instrumental em próximos lançamentos, especialmente em um eventual álbum que permita explorar diferentes facetas de sua proposta. Por ora, entretanto, “Lie” cumpre muito bem sua função: é um single atmosférico, emocionalmente consistente e tecnicamente competente, capaz de apresentar ADNA MELAN como uma artista promissora dentro da vertente alternativa e gótica brasileira.
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