Resenha: novo trabalho da Guardian of Lightning é avaliado pelo blog Metal Fire Metal
Postado em 04/11/2026


Resenha de CD originalmente publicada pelo blog Metal Fire Metal

Por Greg M. Schurtz

Nota: 08.0/10.0

A força de uma boa remasterização está na capacidade de valorizar uma obra sem comprometer sua identidade original. É justamente esse o mérito de Cosmos Tree (Remastered), do trio paulista GUARDIAN OF LIGHTNING. Lançado originalmente em 17 de julho de 2020 pela gravadora norte-americana Eclipse Records, o álbum de estreia ganhou uma nova edição em 23 de agosto de 2022, com masterização assinada pelo experiente Billy Stull, profissional que já trabalhou com nomes como Led Zeppelin e Jimi Hendrix. O resultado é bastante superior ao da versão original, proporcionando uma experiência sonora mais envolvente, com maior definição e valorização dos instrumentos. Mais do que uma simples atualização técnica, a nova masterização permite apreciar melhor as particularidades de uma proposta que já se destacava pela personalidade.

Formada em 2017, na cidade de Guariba, interior de São Paulo, a GUARDIAN OF LIGHTNING desenvolveu uma identidade própria, batizada de Thunder Metal, cuja principal característica é colocar o baixo elétrico na posição normalmente ocupada pela guitarra solo. A ideia surgiu das composições de Irón King, responsável pelo baixo principal e um dos grandes protagonistas do disco. Suas linhas carregadas de distorção, acompanhadas por solos e passagens de grande intensidade, conferem uma personalidade bastante particular ao repertório. Em Cosmos Tree, o instrumento não funciona apenas como sustentação rítmica: assume o protagonismo, conduz as melodias e estabelece boa parte da atmosfera pesada que define o trabalho. Na versão remasterizada, essa característica ganha ainda mais evidência, tornando a audição das intervenções de Irón King particularmente satisfatória.

Ao lado de Irón King está Marco Fino, responsável pelos vocais e pela guitarra rítmica. Sua interpretação apresenta uma combinação interessante de aspereza, espontaneidade e energia, transitando entre o peso tradicional do Heavy Metal e uma abordagem mais próxima do Stoner Rock. Essa versatilidade aparece com clareza em “Cosmos Tree”, faixa-título que abre o caminho para a identidade musical do grupo. Com riffs encorpados, baixo pulsante e uma atmosfera que alterna momentos de maior intensidade com passagens mais cadenciadas, a composição também apresenta uma temática reflexiva sobre a existência humana e nossa conexão com algo maior. Outro momento de destaque é “Raise Your Sword”, uma composição vigorosa, de espírito motivacional, que combina a força dos riffs com uma interpretação vocal convincente. A música funciona como um convite à resistência diante das adversidades, reforçando o caráter inspirador de parte das letras.

Na bateria, Lord Drum completa a formação com uma atuação consistente, conferindo sustentação e dinâmica às composições. Seu trabalho acompanha as variações de intensidade sem disputar espaço com o baixo protagonista, contribuindo para que a sonoridade do trio mantenha equilíbrio e contundência. Essa integração fica especialmente evidente em “Sound of Thunder”, um dos grandes momentos do repertório. Inspirada na lenda indígena norte-americana do pássaro-trovão (Thunderbird), a música apresenta uma narrativa sobre proteção, coragem e superação das injustiças. Os riffs pesados, as intervenções instrumentais e a condução rítmica criam uma atmosfera imponente, enquanto a interpretação reforça o caráter épico da composição. Vale destacar que a edição remasterizada traz uma versão estendida da faixa, permitindo explorar ainda mais sua construção musical. A música também ganhou um videoclipe oficial na ocasião do relançamento.

Outro destaque é “Another Place”, que explora uma faceta mais descontraída do trio, com passagens de guitarra que percorrem os canais estéreo e uma base instrumental de forte influência do Rock clássico. O baixo distorcido conduz a composição, enquanto os solos acrescentam personalidade e ajudam a quebrar qualquer previsibilidade. Já “Be Like the Moon” encerra o repertório com uma abordagem mais leve e espontânea, apostando em vocais de inclinação punk, guitarras carregadas de fuzz e uma atmosfera descontraída. São momentos que demonstram como a banda consegue transitar entre diferentes referências sem abandonar sua essência. Nesse contexto, a remasterização de Billy Stull faz toda a diferença: os detalhes instrumentais ficam mais perceptíveis e a sonoridade ganha uma apresentação mais agradável, favorecendo a apreciação das nuances que poderiam passar despercebidas na edição original.

Com Cosmos Tree (Remastered), a GUARDIAN OF LIGHTNING reafirma a personalidade de um trabalho de estreia que merece maior reconhecimento, especialmente por sua proposta instrumental pouco convencional. A combinação entre o baixo virtuoso de Irón King, a guitarra e os vocais de Marco Fino e a bateria de Lord Drum demonstra que o trio encontrou uma maneira própria de explorar o Heavy Metal, incorporando elementos de Stoner Rock e Rock clássico. A participação de Billy Stull foi fundamental para apresentar esse material em condições sonoras superiores, tornando esta edição uma escolha mais interessante do que a original. Se o primeiro lançamento já revelava boas ideias, a versão remasterizada consegue valorizá-las com maior clareza e impacto. É uma oportunidade de redescobrir um álbum que tem personalidade, boas composições e, sobretudo, uma identidade que não depende de fórmulas convencionais para chamar a atenção.

 
Categoria/Category: Clipping

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