Resenha: primeiro EP da banda Odiado começa a ganhar musculatura no nordeste do país
Postado em 14/10/2026


Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Fullrock

Por Jeferson di Pádua

Nota: 09.0/10.0

A avaliação de Cortante, EP de estreia do ODIADO, passa pela compreensão de uma proposta que combina peso instrumental, liberdade criativa e observações incômodas sobre a realidade. Lançado em março de 2025, o trabalho reúne seis composições autorais e cerca de 27 minutos de música, apresentando um quarteto goiano que transita pelo Groove Metal sem se limitar às fronteiras do estilo. As referências a Pantera, Lamb of God e Black Sabbath convivem com elementos de Stoner, Doom, Heavy Metal, música brasileira, Jazz e Country. O mérito do registro está justamente nessa disposição para experimentar sem abandonar a contundência; em contrapartida, a diversidade de influências exige do ouvinte atenção para perceber a unidade que conecta as diferentes ideias.

O vocalista Rodrigo Zed assume um papel importante na identidade do EP ao conduzir letras em português que transformam inquietações pessoais e sociais em matéria-prima para a música pesada. Essa intenção ganha força em “Violência Repentina”, uma das faixas mais relevantes do repertório: inspirada em um caso real de violência doméstica, a composição denuncia a crueldade escondida atrás das aparências e questiona a falsa segurança que pode existir dentro do próprio lar. Em vez de tratar o tema apenas pelo impacto imediato do crime, a banda procura evidenciar o acúmulo de agressões, ameaças e silêncios que frequentemente antecede a tragédia. A abordagem confere à música um peso que vai além da instrumentação e demonstra como o ODIADO procura associar agressividade sonora a uma mensagem social concreta.

Na guitarra, Tiago Guanaes contribui para uma sonoridade que busca conciliar riffs pesados e diferentes possibilidades rítmicas, sem restringir a composição a uma fórmula rígida. A faixa-título, “Cortante”, funciona como apresentação dessa identidade, enquanto “Caminho das Cinzas” amplia o percurso do EP e ajuda a estabelecer a variedade de seu repertório. O aspecto mais interessante está no processo coletivo de criação: segundo os integrantes, todas as músicas nasceram da contribuição dos quatro músicos, sem composições atribuídas exclusivamente a uma única pessoa. Essa dinâmica favorece o intercâmbio de ideias e permite incorporar soluções menos convencionais, embora a combinação de referências tão distintas também torne a coesão entre as faixas um dos principais desafios do material.

A seção rítmica formada por Claudius Maximus, no contrabaixo, e Ozy, na bateria, completa a estrutura do quarteto e sustenta a inclinação do grupo para o Groove Metal. Em “Circo de Horrores”, a duração mais enxuta — pouco mais de três minutos — contrasta com os seis minutos de “Síncope”, que encerra o EP e oferece um espaço maior dentro da sequência do álbum. Já “Perverso”, com pouco mais de cinco minutos, integra esse conjunto de composições que evita limitar todo o registro a faixas de formato idêntico. A diferença de duração ajuda a revelar uma tracklist que alterna abordagens mais diretas e passagens mais extensas, ainda que o principal atrativo permaneça na combinação entre peso, experimentação e o caráter autoral do projeto.

Em perspectiva crítica, Cortante se destaca menos por reinventar o Groove Metal do que pela maneira como o ODIADO utiliza suas referências para desenvolver uma identidade própria, marcada por letras reflexivas e disposição para explorar caminhos diversos. O curto intervalo entre a formação do grupo, no início de 2025, e a preparação do EP demonstra a urgência que acompanhou sua estreia; posteriormente, o quarteto também recebeu cinco indicações na votação Melhores de 2025, da revista Roadie Crew, incluindo categorias para o lançamento e para cada integrante. Esses reconhecimentos reforçam a repercussão alcançada pelo trabalho, sem substituir a avaliação de suas qualidades musicais: o ponto mais convincente do EP é a união entre contundência e intenção temática, enquanto o desafio futuro será aprofundar essa personalidade e transformar a amplitude de influências em uma assinatura ainda mais coesa.

 
Categoria/Category: Clipping

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