{"id":63188,"date":"2026-10-14T20:47:48","date_gmt":"2026-10-14T20:47:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.msmetalagencybrasil.com\/ptbr\/?p=63188"},"modified":"2026-10-14T20:47:48","modified_gmt":"2026-10-14T20:47:48","slug":"resenha-novo-album-da-uganga-e-avaliado-pela-equipe-do-portal-subterraneo-metal-punk","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.msmetalagencybrasil.com\/ptbr\/resenha-novo-album-da-uganga-e-avaliado-pela-equipe-do-portal-subterraneo-metal-punk\/","title":{"rendered":"Resenha: novo \u00e1lbum da Uganga \u00e9 avaliado pela equipe do portal Subterr\u00e2neo Metal Punk"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-61736 alignleft\" src=\"https:\/\/www.msmetalagencybrasil.com\/ptbr\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/7.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\" \/>Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Subterr\u00e2neo Metal Punk<\/p>\n<p>Por Johnny Freire<\/p>\n<p>Nota: 08.5\/10.0<\/p>\n<p>O oitavo \u00e1lbum de est\u00fadio do UGANGA, Ganeshu, lan\u00e7ado em 9 de maio de 2025, constitui um testemunho eloquente da capacidade de reinven\u00e7\u00e3o de uma das forma\u00e7\u00f5es mais singulares do Crossover brasileiro. Com dez faixas distribu\u00eddas em aproximadamente 26 minutos, o trabalho condensa mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de experi\u00eancia em uma obra concisa, visceral e deliberadamente avessa a compartimenta\u00e7\u00f5es estil\u00edsticas. O alicerce permanece assentado no encontro entre Thrash Metal, Hardcore e Groove Metal, mas a arquitetura sonora incorpora, sem rever\u00eancia excessiva \u00e0s conven\u00e7\u00f5es, elementos de Dub, Rap, psicodelia e texturas eletr\u00f4nicas. A produ\u00e7\u00e3o, compartilhada entre Manu Joker e Gustavo Vazquez, privilegia uma sonoridade org\u00e2nica e incisiva; a decis\u00e3o de registrar a base instrumental de maneira conjunta, no Rocklab Studio, em An\u00e1polis (GO), contribui para preservar a urg\u00eancia perform\u00e1tica que caracteriza o grupo no palco. Mais do que uma sucess\u00e3o de composi\u00e7\u00f5es agressivas, Ganeshuse apresenta como o registro de uma transi\u00e7\u00e3o art\u00edstica na qual a experi\u00eancia acumulada n\u00e3o se converte em acomoda\u00e7\u00e3o, mas em combust\u00edvel para novas experimenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A centralidade criativa de Manu \u201cJoker\u201d Henriques, vocalista, percussionista e fundador do UGANGA, manifesta-se tanto na interpreta\u00e7\u00e3o vocal quanto na concep\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica que atravessa o repert\u00f3rio. Sua trajet\u00f3ria, que inclui a participa\u00e7\u00e3o no hist\u00f3rico Sarc\u00f3fago, confere-lhe uma perspectiva privilegiada sobre a evolu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica extrema brasileira, mas Ganeshu n\u00e3o se sustenta apenas no prest\u00edgio de seu passado: o m\u00fasico emprega a experi\u00eancia acumulada para articular indigna\u00e7\u00e3o social, espiritualidade e resist\u00eancia em composi\u00e7\u00f5es de not\u00e1vel contund\u00eancia. \u201cA Profecia\u201d, respons\u00e1vel por inaugurar o percurso propriamente musical do \u00e1lbum ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica \u201cIgarap\u00e9s\u201d, sintetiza essa disposi\u00e7\u00e3o combativa ao combinar a aspereza do Hardcore com a velocidade e a agressividade do Thrash Metal. A colabora\u00e7\u00e3o de Paulo \u201cBigfoot\u201d, do Delinquentes, na composi\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a origem coletiva da faixa, cuja estrutura direta e energ\u00e9tica ajuda a explicar sua escolha para abrir as apresenta\u00e7\u00f5es da turn\u00ea. Em \u201cConfesso\u201d, por sua vez, a abordagem vocal encontra uma base instrumental mais din\u00e2mica, evidenciando como o discurso de Manu se integra \u00e0 arquitetura musical sem reduzir as can\u00e7\u00f5es a meros ve\u00edculos para as letras.<\/p>\n<p>Nas guitarras, Jean Pagani desempenha uma fun\u00e7\u00e3o determinante na constru\u00e7\u00e3o das texturas que distinguem o \u00e1lbum, alternando riffs compactos, passagens velozes e solu\u00e7\u00f5es r\u00edtmicas que privilegiam o impacto f\u00edsico sem negligenciar as nuances composicionais. \u201cExu N\u00e3o Passa Pano\u201d figura entre os momentos mais contundentes do repert\u00f3rio: o fraseado incisivo, a pulsa\u00e7\u00e3o inclinada ao Hardcore e o refr\u00e3o de assimila\u00e7\u00e3o imediata convergem para uma composi\u00e7\u00e3o que parece concebida para incendiar a intera\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico. A faixa tamb\u00e9m evidencia a dimens\u00e3o provocativa da escrita do UGANGA, cuja cr\u00edtica n\u00e3o se limita \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, mas se articula a refer\u00eancias culturais e espirituais presentes no universo conceitual do disco. Em outra dire\u00e7\u00e3o, a faixa-t\u00edtulo, \u201cGaneshu\u201d, amplia o campo expressivo da banda ao reunir elementos apresentados ao longo do \u00e1lbum, incluindo varia\u00e7\u00f5es de andamento, ritmos regionais e uma progress\u00e3o que desemboca em um desfecho mais extremo. Sua dura\u00e7\u00e3o, superior \u00e0 das demais composi\u00e7\u00f5es, permite que as diferentes influ\u00eancias coexistam sem que a m\u00fasica perca inteiramente a tens\u00e3o que sustenta o conjunto. \u00c9 justamente nessa disposi\u00e7\u00e3o para aproximar linguagens distintas que o trabalho encontra parte de sua for\u00e7a \u2014 embora a multiplicidade de refer\u00eancias demande uma escuta atenta para que seus pontos de converg\u00eancia sejam plenamente percebidos.<\/p>\n<p>A se\u00e7\u00e3o r\u00edtmica, formada por Juninho Silva na bateria e Raphael \u201cRas\u201d Franco no baixo, confere ao registro a sustenta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que a experimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o dissolva sua contund\u00eancia. Juninho demonstra especial sensibilidade \u00e0s mudan\u00e7as de andamento e \u00e0s quebras r\u00edtmicas, elementos que enriquecem \u201cConfesso\u201d e \u201cTem Fogo!\u201d, esta \u00faltima um dos singles mais representativos da faceta direta e expansiva do disco. A composi\u00e7\u00e3o articula cad\u00eancia pesada, acentos pr\u00f3ximos do Rap e passagens que favorecem o impacto coletivo, enquanto a execu\u00e7\u00e3o do baterista mant\u00e9m a m\u00fasica em movimento sem recorrer a demonstra\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas gratuitas. Ras, por sua vez, estabelece uma base grave que refor\u00e7a a densidade das guitarras sem comprometer a defini\u00e7\u00e3o instrumental. A liberdade est\u00e9tica da banda encontra express\u00e3o particularmente reveladora em \u201cPsicoraio Dub\u201d, cuja aproxima\u00e7\u00e3o ao Dub e aos elementos eletr\u00f4nicos poderia soar deslocada em um repert\u00f3rio convencional de Metal, mas aqui amplia o vocabul\u00e1rio do grupo e desafia expectativas estabelecidas. J\u00e1 \u201cPressentimento\u201d, que encerra o \u00e1lbum com participa\u00e7\u00f5es de Jonas Pheer, O Eremita Roots e Isabela Melo, incorpora novas inflex\u00f5es e aproxima\u00e7\u00f5es ao Rap, reafirmando a recusa do UGANGA em tratar o Crossover como uma f\u00f3rmula imut\u00e1vel. A combina\u00e7\u00e3o entre execu\u00e7\u00e3o coesa e abertura estil\u00edstica constitui, assim, um dos principais m\u00e9ritos do trabalho.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria denomina\u00e7\u00e3o Ganeshu sintetiza o horizonte conceitual do \u00e1lbum: segundo Manu Joker, o nome nasce de uma fus\u00e3o simb\u00f3lica entre Ganesha, figura da tradi\u00e7\u00e3o hindu associada \u00e0 remo\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos e \u00e0 abertura de caminhos, e Exu, entidade de grande relev\u00e2ncia nas tradi\u00e7\u00f5es religiosas afro-brasileiras. Essa aproxima\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona apenas como ornamento ou curiosidade nominal; ela dialoga com a trajet\u00f3ria de uma banda que, ao longo de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, construiu sua identidade pela recusa de fronteiras r\u00edgidas, tanto no plano musical quanto no tem\u00e1tico. Natureza, ancestralidade, espiritualidade, resist\u00eancia e cr\u00edtica social integram esse universo, no qual a agressividade sonora convive com refer\u00eancias culturais que ultrapassam os limites habituais do Metal. A capa, concebida por Artur Fontenelle a partir de uma ideia de Manu, acompanha essa inten\u00e7\u00e3o de conferir ao disco uma identidade visual e conceitual pr\u00f3pria. Sob uma perspectiva cr\u00edtica, Ganeshu talvez n\u00e3o alcance uniformidade absoluta em todas as suas transi\u00e7\u00f5es, mas sua brevidade impede que a experimenta\u00e7\u00e3o se torne excessivamente dispersa, e a sequ\u00eancia de dez faixas favorece uma audi\u00e7\u00e3o integral \u2014 abordagem que o pr\u00f3prio vocalista recomenda em entrevista. Ao registrar uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica em meio a mudan\u00e7as internas e apresentar uma sonoridade que conjuga brutalidade, inquieta\u00e7\u00e3o e pluralidade, o oitavo \u00e1lbum do UGANGA reafirma a vitalidade de um projeto independente que compreende a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o como limite, mas como plataforma para continuar abrindo caminhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Subterr\u00e2neo Metal Punk Por Johnny Freire Nota: 08.5\/10.0 O oitavo \u00e1lbum de est\u00fadio do UGANGA, Ganeshu, lan\u00e7ado em 9 de maio de 2025, constitui um testemunho eloquente da capacidade de reinven\u00e7\u00e3o de uma das forma\u00e7\u00f5es mais singulares do Crossover brasileiro. 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