Resenha: novo álbum da Profira rompe as barreiras do mercado brasileiro
Postado em 16/09/2026


Resenha de CD originalmente publicada pelo site Cultura em Peso

Por Sérgio “Murray” Martins

Nota: 08.0/10.0

A PROFIRA chega a Em Nosso Lugar” com um trabalho que deixa claro o amadurecimento de uma trajetória iniciada em 2014, em Angra dos Reis (RJ), por Marcelo Banni e Daniel Serra. O álbum, lançado em 2025, reúne oito faixas e aproximadamente 27 minutos de duração, transitando por um Rock mais acessível que absorve elementos de Pop Rock, referências da música brasileira e uma forte dimensão espiritual nas suas letras. O interessante é que a banda não tenta esconder suas convicções: fé, esperança, relações humanas, desigualdade e questões sociais aparecem naturalmente entre os principais temas da obra, enquanto a música procura manter uma comunicação direta com o ouvinte. Em entrevista recente, Marcelo definiu a trajetória da PROFIRA como uma busca por “música com identidade e verdade”, lembrando que o grupo passou por influências como Pop Rock Nacional, MPB, música cristã e clássicos do Rock.

Logo de cara, “O Brasil Tem Jeito” estabelece uma das características mais interessantes do disco: a capacidade de abordar temas amplos sem transformar as canções em discursos excessivamente pesados. A faixa abre espaço para “Nada Além do Novo”, que trabalha melhor as guitarras e evidencia a atuação de Marcelo Banni tanto nos vocais quanto no instrumento. Sua interpretação aposta mais na melodia e na clareza do que em qualquer demonstração exagerada de técnica, enquanto Daniel Honorato acrescenta uma segunda camada de guitarra que ajuda a preencher o arranjo. A formação atual, completada por Big Hand’s no baixo e Ryan Banni na bateria, apresenta um entrosamento particularmente perceptível nas mudanças de intensidade e na sustentação rítmica do repertório.

“Para Te Adorar” é outro momento que merece atenção, principalmente por mostrar como a PROFIRA consegue aproximar sua vertente espiritual de uma estrutura essencialmente roqueira. Os riffs têm presença, mas não roubam espaço da voz, e Marcelo encontra um bom equilíbrio entre interpretação e musicalidade. Em seguida, “Lágrimas nos Olhos” muda o clima e aposta em uma abordagem mais introspectiva, começando de maneira contida para depois ganhar corpo com as guitarras e a seção rítmica. É justamente nessa faixa que Daniel Honorato, Big Hand’s e Ryan Banni funcionam mais como uma unidade do que como músicos buscando protagonismo individual: cada instrumento ocupa seu espaço e contribui para que a dinâmica da composição cresça de maneira orgânica.

A faixa-título, naturalmente, funciona como o centro emocional do álbum. “Em Nosso Lugar” tem uma história curiosa: segundo a própria trajetória registrada pela imprensa, a composição nasceu quase por acaso, quando Marcelo Banni começou a cantarolar algumas ideias durante uma conversa e Daniel Serra percebeu que havia ali material suficiente para uma música. Em menos de 20 minutos, a canção estava pronta. Essa espontaneidade ajuda a entender sua estrutura simples e eficiente, que parte de uma atmosfera próxima da balada e gradualmente ganha força através das guitarras. “Somos Filhos de Deus”, “Todos Os Dias” e “Criador e Criação” completam o repertório mantendo essa mesma preocupação em conciliar mensagem e acessibilidade, sem transformar o álbum em uma coleção de faixas excessivamente semelhantes.

No balanço final, Em Nosso Lugar” funciona justamente porque a PROFIRA não parece interessada em separar mensagem e música. O disco pode ganhar ainda mais força em trabalhos futuros caso a banda explore estruturas mais variadas e permita que a instrumentação assuma, em alguns momentos, um protagonismo maior, mas a identidade já está bem estabelecida. Marcelo Banni demonstra segurança como vocalista e guitarrista, enquanto Daniel Honorato, Big Hand’s e Ryan Banni dão consistência ao conjunto, formando uma base capaz de sustentar tanto as passagens mais suaves quanto os momentos de maior intensidade. O próprio Marcelo resume a atual fase da banda como uma “renovação” e uma busca por novos públicos e experiências, sempre com a intenção de levar para o palco uma apresentação que represente verdadeiramente a PROFIRA. E é justamente essa sinceridade que dá ao álbum seu principal mérito: Em Nosso Lugar” não pretende reinventar o Rock brasileiro, mas apresenta uma banda que sabe o que quer dizer, encontra uma forma própria de fazê-lo e entrega um repertório acessível, melódico e carregado de propósito.

 
Categoria/Category: Clipping

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