Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Reidjou
Por Alex Viana
Após seis anos de espera desde The End of Agony (2020), a VULTURE retorna com Apostasy Campaign, um trabalho que reafirma a experiência acumulada por uma das formações mais longevas do Death Metal brasileiro. Formada em Itapetininga, em 1995, por Adauto Xavier, a banda chega ao sexto álbum de sua trajetória oficial mantendo a brutalidade como elemento central, mas explorando com mais clareza a relação entre peso, melodia e conteúdo temático. São dez faixas que atravessam fanatismo religioso, guerras, manipulação, decadência moral e alienação, sem transformar a crítica em mero discurso panfletário: o álbum procura observar como o próprio ser humano converte crenças em ferramentas de controle e violência.
No campo instrumental, Apostasy Campaign funciona justamente porque Adauto Xavier não tenta transformar a identidade da VULTURE em algo irreconhecível. Responsável pelos vocais e pela guitarra solo, o músico conduz as composições com riffs incisivos, ataques precisos e solos que acrescentam dinâmica ao repertório, enquanto sua interpretação vocal sustenta a atmosfera áspera exigida pelo conteúdo. “Over the Bloodshed” é um dos melhores exemplos dessa combinação: a faixa constrói um cenário de violência e autoritarismo ao abordar a ascensão de figuras corruptas e genocidas transformadas em falsos messias, enquanto musicalmente preserva o caráter direto e agressivo que acompanha a banda. A participação de Yuri Schumann, na guitarra base e nos backing vocals, complementa esse desenho com uma camada rítmica consistente, ajudando a estabelecer a densidade necessária para que os momentos mais melódicos não enfraqueçam o impacto do conjunto.
Outro destaque está em “Cega Devoção”, talvez uma das faixas mais representativas da proposta conceitual do disco. Em vez de restringir sua crítica ao fanatismo religioso, a composição amplia o foco para um ambiente contemporâneo marcado pelo excesso de informação, pela desinformação e pela fabricação de certezas, relacionando esses fenômenos à manipulação coletiva e à dissonância cognitiva. Musicalmente, o resultado equilibra contundência e atmosfera, evidenciando a capacidade da VULTURE de trabalhar temas complexos sem abandonar a objetividade do Death Metal. Nesse contexto, o baixo de Mateus Barros exerce papel fundamental ao reforçar o peso das guitarras e conferir maior sustentação às estruturas, enquanto os backing vocals de Schumann acrescentam corpo aos momentos de maior intensidade. A faixa ganha força justamente por unir uma abordagem musical agressiva a uma mensagem que permanece atual e desconfortavelmente próxima da realidade.
Se “Over the Bloodshed” concentra sua força na violência e “Cega Devoção” se destaca pela reflexão sobre crença e manipulação, “Living in Apostasy” amplia a sensação de ruptura que atravessa o álbum. A música dialoga diretamente com a ideia de rompimento de dogmas sugerida pelo próprio título do trabalho e pela concepção visual criada por Cayo Faria, funcionando como uma síntese da atmosfera sombria que percorre as dez composições. Na bateria, Nelson Junior demonstra segurança ao sustentar a velocidade e as mudanças de dinâmica, sem transformar a performance em demonstração gratuita de técnica; seu trabalho serve à composição e mantém o repertório em movimento. A interação entre bateria, baixo e guitarras é um dos méritos do disco, pois preserva a agressividade tradicional da VULTURE ao mesmo tempo que permite que riffs melódicos e passagens mais elaboradas encontrem espaço dentro das estruturas.
Um dos grandes responsáveis por fazer todos esses elementos funcionarem de maneira equilibrada é Fernando Roma, que produziu, mixou e masterizou Apostasy Campaign no Fraktal Studio. Seu trabalho merece destaque por conferir definição às guitarras, peso à seção rítmica e clareza aos vocais sem retirar da gravação a aspereza que faz parte da personalidade da VULTURE. O resultado é um álbum que não depende de modernizações artificiais para soar atual: sua força está na capacidade de uma banda com mais de três décadas de estrada revisitar seus próprios fundamentos com segurança, mantendo brutalidade, melodias marcantes e uma abordagem direta. Apostasy Campaign, portanto, não representa apenas o retorno de um nome histórico do Death Metal nacional, mas uma demonstração convincente de que experiência e identidade ainda podem produzir música extrema relevante, vigorosa e, sobretudo, coerente com sua própria história.
Notícia mais antiga: Resenha: debut álbum da Metalminator é avaliado pelo jornalista Greg M. Schurtz »


