Resenha de CD originalmente publicada pelo blog Metal Fire Metal
Por Greg M. Schurtz
Nota: 09.0/10.0
Incognito, primeiro álbum da MAD SNEAKS, é um trabalho que chega sem muita vontade de pedir licença — e isso combina perfeitamente com a personalidade do trio. Lançado em março de 2026, o disco reúne dez faixas e transforma referências do Grunge, Alternative Rock, Punk e Stoner em uma sonoridade crua, pesada e, acima de tudo, humana. A banda surgiu em 2009, em Alpinópolis (MG), mudou-se para São Paulo em 2016 e construiu sua trajetória justamente a partir da ideia de fazer barulho sem se prender demais a rótulos. Aqui, essa postura aparece de maneira bastante natural: MAD SNEAKS não tenta esconder suas influências, mas também não soa como uma banda fantasiada de anos 1990. O resultado é um álbum cheio de contrastes, alternando sujeira, melodia, tensão, crítica social e vulnerabilidade.
Na guitarra e nos vocais, Agno Dissan concentra boa parte da personalidade de Incognito, transitando com desenvoltura entre interpretações mais ásperas e momentos de maior fragilidade. “The Cure” é um dos grandes destaques justamente por condensar essas características: riffs marcantes, atmosfera sombria e uma melancolia que cresce sem transformar a composição em algo excessivamente contemplativo. A música parece caminhar o tempo todo entre a vontade de encontrar uma saída e a percepção de que talvez ela não exista. “Pandora”, por sua vez, apresenta uma faceta mais melódica e emocional, trabalhando sentimentos de perda, isolamento e busca por compreensão. É nessa alternância entre peso e sensibilidade que MAD SNEAKS encontra um de seus caminhos mais interessantes.
Se a guitarra estabelece boa parte da tensão, Amaury Johns é quem mantém a máquina funcionando com uma bateria direta, vigorosa e sem firulas desnecessárias. O músico entende que, em um power trio, cada golpe precisa ocupar espaço, mas sem transformar a performance em uma competição de exibicionismo. “Coma” é um ótimo exemplo disso: a faixa mergulha em uma atmosfera sufocante, abordando medo, dependência e autodestruição por meio de uma construção pesada e insistente, na qual a bateria ajuda a criar aquela sensação incômoda de estar preso dentro da própria cabeça. A força da música está justamente em não tentar suavizar o desconforto. A produção acompanha essa proposta ao preservar a impressão de que há três pessoas tocando juntas, com dinâmica e organicidade, em vez de empilhar camadas até apagar a identidade do trio.
No baixo, Phill Andreas oferece a sustentação necessária para que as guitarras possam avançar sem perder densidade. Seu trabalho ajuda a preencher os espaços e reforça especialmente os momentos em que o álbum mergulha em regiões mais pesadas e sombrias. “Pandora” ganha corpo com essa combinação, enquanto “Coma” encontra no baixo uma espécie de alicerce para sua atmosfera claustrofóbica. Já “The Cure” demonstra como a seção rítmica pode sustentar uma composição mais introspectiva sem diminuir seu impacto. Essa coesão instrumental é importante porque Incognito foi concebido para soar grande mesmo sendo produzido por apenas três músicos. A própria MAD SNEAKS destaca a busca por uma gravação que não escondesse os integrantes nem eliminasse as imperfeições naturais de uma performance orgânica — e essa escolha acaba sendo um dos maiores trunfos do disco.
No fim das contas, Incognito funciona porque MAD SNEAKS não tenta transformar suas referências em uma fantasia retrô. Nirvana, Silverchair, Alice in Chains, Helmet, Ramones, Soundgarden e Social Distortion fazem parte desse DNA, mas aparecem filtrados pelas experiências de uma banda que começou no interior de Minas Gerais, encontrou seu espaço em São Paulo e acumulou ao longo do caminho experiências com nomes como Jack Endino, Toby Wright e Page Hamilton — este último participando de “Dead Killer”. A decisão de não perseguir algoritmos, playlists ou uma fórmula comercial também combina com o caráter do álbum: são dez músicas pensadas como uma viagem única, na qual “The Cure”, “Pandora” e “Coma” funcionam como pontos especialmente fortes. É Rock sem maquiagem excessiva, com sujeira, melodia e personalidade; um disco que entende que, às vezes, o melhor jeito de fazer barulho é simplesmente deixar a banda tocar.
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