RESENHA: CONFIRA MAIS UMA AVALIAÇÃO NACIONAL DO DEBUT ÁLBUM DA aDULFE
Postado em 04/11/2026


Resenha de CD originalmente publicada pelo blog Avalanche Sonora

Por Rodrigo Silva

Nota: 08.5/10.0

Originária de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, a ADULFE apresenta em Anxiety um trabalho que representa uma mudança significativa em sua trajetória musical. Inicialmente concebido como EP, em 2025, o material ganhou posteriormente uma edição em formato de álbum, consolidando a presença do grupo no cenário brasileiro de Metalcore e Deathcore. Com sete composições, o registro investe em uma sonoridade mais agressiva e direta, incorporando breakdowns, guitarras encorpadas e vocais extremos. A mudança de direcionamento em relação ao antecessor Decadência (2021) evidencia a disposição dos músicos em experimentar novas possibilidades, sem perder a identidade construída desde o início da carreira. Mais do que uma demonstração de força instrumental, Anxiety apresenta uma proposta conceitual voltada aos transtornos psicológicos, especialmente à ansiedade e à depressão, transformando experiências pessoais em matéria-prima para composições intensas e emocionalmente carregadas.

O trabalho de guitarra é um dos pilares de Anxiety. Matheus Siqueira e Bruno Castro demonstram bom entrosamento na construção dos riffs, alternando passagens melódicas, bases encorpadas e intervenções mais agressivas. “Darkness Inside” é um dos grandes momentos do repertório, justamente por reunir linhas de guitarra marcantes e uma construção que equilibra peso e melodia. “So Blind” também merece destaque, com uma atmosfera sufocante que acompanha a temática de sofrimento psicológico, isolamento e incompreensão. Já “Pain and Misery” aposta em uma abordagem mais contundente, com riffs pesados e breakdowns que reforçam a inclinação da banda para o Deathcore. O contrabaixo de Otavio Siqueira complementa esse conjunto, oferecendo sustentação às estruturas e contribuindo para a densidade sonora das composições.

Nos vocais, Rodrigo Garcia apresenta um dos desempenhos mais expressivos do trabalho. Sua capacidade de alternar guturais profundos e screams cortantes acrescenta intensidade às composições, especialmente em “Life and Death”, na qual a interpretação acompanha muito bem a carga emocional da letra. Em “I’ll Find My Way”, por outro lado, a mensagem de superação e resistência ganha força por meio de uma abordagem que transmite inconformismo e determinação. O baterista Marcos Phelipe (PH) também merece reconhecimento pela execução precisa e vigorosa, particularmente em “Darkness Inside” e “Pain and Misery”, faixas nas quais as variações rítmicas e os momentos de maior pressão exigem controle e segurança. A combinação desses elementos demonstra que a agressividade do grupo não depende apenas da velocidade, mas também da capacidade de construir momentos de tensão e impacto.

Um dos aspectos mais interessantes de Anxiety está na sinceridade de sua proposta. Em entrevista ao portal ReiDjou!, o integrante PH explicou que as composições nasceram de experiências cotidianas e que a intenção era abordar questões psicológicas delicadas, incentivando quem enfrenta essas dificuldades a procurar ajuda profissional. Em outra conversa, publicada pelo Road to Metal em setembro de 2026, Bruno Castro comentou a aproximação da banda com o Deathcore, destacando a opção por uma sonoridade mais bruta, com guitarras em evidência, breakdowns e poucas passagens melódicas. Essa mudança de direcionamento também demonstra uma disposição para sair da zona de conforto e buscar novos caminhos. A produção de Matt Nunes, responsável pela mixagem e masterização segundo os integrantes, contribui para a definição dos instrumentos e para o impacto das composições, enquanto a arte de capa assinada por Carlos Fides reforça visualmente o conceito do trabalho.

No balanço geral, Anxiety representa um passo importante para a ADULFE, especialmente pela maneira como combina conteúdo emocionalmente delicado com uma sonoridade extrema e contemporânea. A repetição de algumas fórmulas características do Metalcore e do Deathcore pode limitar um pouco a diversidade do repertório, mas a qualidade da execução, a consistência das composições e a força de faixas como “Darkness Inside”, “So Blind” e “Life and Death” compensam essa característica. A banda também demonstra ambição ao buscar espaço fora do Brasil, utilizando letras em inglês e estabelecendo contatos com o mercado internacional. Não se trata apenas de um exercício de agressividade, mas de um trabalho que procura transformar experiências pessoais em uma mensagem de resistência. Com boas performances individuais e uma identidade cada vez mais definida, a ADULFE entrega um registro convincente e confirma seu potencial dentro da atual geração do Metal pesado brasileiro.

 
Categoria/Category: Clipping

TOP