Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Brazil Legion
Por Rodrigo Maldonado
Nota: 08.0/10.0
Incognito, primeiro álbum da MAD SNEAKS, é um trabalho que transforma referências do Rock alternativo dos anos 1990 em matéria-prima para uma produção deliberadamente orgânica. Lançado em 7 de março de 2026, o disco reúne dez faixas e foi disponibilizado exclusivamente pelo Bandcamp e em uma edição física limitada em CD, decisão coerente com a postura assumida pelo trio diante do atual modelo de consumo musical. Em vez de perseguir fórmulas de streaming, playlists ou algoritmos, Agno Dissan, Amaury Johns e Phill Andreas optaram por registrar aquilo que queriam ouvir e tocar, preservando uma sonoridade crua que transita por Grunge, Alternative Rock, Punk e Stoner.
Na guitarra e nos vocais, Agno Dissan conduz boa parte da personalidade do álbum. Sua interpretação alterna momentos ásperos e vulneráveis, enquanto as guitarras preservam aquela sensação de espontaneidade que a MAD SNEAKS procura desde sua formação, em 2009, ainda em Alpinópolis (MG). “The Cure” é um dos pontos altos justamente por condensar essa identidade: a composição combina peso e melancolia, criando uma atmosfera introspectiva sem abrir mão de riffs marcantes. Já “Dead Killer”, escolhida para abrir o repertório, ganha dimensão adicional com a participação de Page Hamilton, do Helmet, cuja presença acrescenta uma camada de agressividade ao Alternative Rock da banda. A faixa também evidencia a importância das conexões construídas pelo trio ao longo dos anos, incluindo trabalhos com produtores como Jack Endino e Toby Wright.
Amaury Johns, por sua vez, desempenha papel decisivo na manutenção do impacto rítmico de Incognito. A bateria não procura ornamentação excessiva: é direta, vigorosa e suficientemente dinâmica para fazer o trio soar maior do que sua formação sugere. “Dirty Blood” é um excelente exemplo dessa abordagem. Com apenas 2min15s, a faixa funciona como uma descarga concentrada, explorando tensão, cansaço e conflitos internos em uma estrutura curta e incisiva. “Coma” segue por uma direção mais sufocante, utilizando peso e repetição para abordar medo, dependência e autodestruição. A produção, concebida para não esconder os músicos, reforça justamente essa característica: a MAD SNEAKS queria que o ouvinte percebesse três pessoas tocando de verdade, sem eliminar as imperfeições que fazem parte da experiência orgânica.
No baixo, Phill Andreas fornece a sustentação necessária para que as guitarras tenham liberdade sem perder densidade. Seu instrumento ganha especial relevância na construção das passagens mais pesadas, contribuindo para o equilíbrio entre sujeira, groove e melodia que percorre o repertório. “Biocide”, uma das três faixas que Agno Dissan apontou em entrevista como representativas do conceito do álbum, é um destaque nesse sentido: com quase cinco minutos, apresenta uma atmosfera mais sombria e progressiva, enquanto a banda explora o lado mais caótico de sua linguagem. “Label” também merece atenção por sua abordagem provocativa, tratando dos julgamentos e rótulos impostos pelos outros com uma estrutura simples, porém eficiente.
O mérito de Incognito está, enfim, em sua coerência. A MAD SNEAKS não tenta esconder suas influências — Nirvana, Silverchair, Alice in Chains, Helmet, Ramones, Soundgarden, Social Distortion, entre outras —, mas também não se limita a reproduzi-las. O álbum é uma releitura em inglês de Incógnita, trabalho originalmente concebido em 2012, agora apresentado com arranjos renovados e uma identidade sonora mais pesada. “Pandora”, “Shots, Roses and Fire” e “Medeleine” ampliam a paleta emocional, enquanto “Endless Song” encerra o percurso sem quebrar a proposta de uma audição contínua. O resultado é um registro que aposta na vulnerabilidade, no peso e na espontaneidade para defender uma ideia simples, mas cada vez menos comum: fazer Rock porque ainda existe algo a dizer — e porque ainda há prazer em tocar.
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