Resenha de CD originalmente publicada pelo portal Brazil Legion
Por Rodrigo Maldonado
Nota: 08.5/10.0
Ganeshu é um daqueles álbuns que não pedem apenas uma faixa isolada, mas uma audição completa para que suas diferentes camadas sejam devidamente absorvidas. Em seu oitavo trabalho de estúdio, a UGANGA condensa dez músicas em aproximadamente 26 minutos e reafirma uma concepção muito particular de Crossover, na qual Thrash Metal, Hardcore e Groove Metal convivem com Dub, Rap, psicodelia e referências da música mineira. Lançado em 9 de maio de 2025, o disco também funciona como registro de um período de profundas transformações na trajetória do grupo, que encontrou justamente nessas mudanças o impulso para um novo ciclo criativo.
Manu Joker permanece como o grande eixo artístico da UGANGA, mas seu desempenho em Ganeshu está longe de depender exclusivamente do peso de sua história. Fundador da banda e figura ligada à cena extrema mineira desde os anos 1980, o vocalista combina agressividade, clareza e diferentes texturas de interpretação, mantendo as letras em português sempre no centro das composições. “A Profecia” é um dos melhores exemplos: depois da introdução atmosférica de “Igarapés”, a música entra como uma pancada de Hardcore e Thrash, sustentada por uma energia urgente e por uma narrativa inspirada na viagem da banda à Amazônia Paraense. A participação de Paulo “Bigfoot”, do Delinquentes, na composição do riff ainda acrescenta uma conexão interessante com o Punk/Hardcore nacional.
Na bateria, Juninho Silva oferece uma atuação fundamental para que o álbum não se torne apenas uma sucessão de riffs velozes. Seu trabalho explora quebras, mudanças de andamento e grooves que mantêm as faixas em constante movimento, algo especialmente perceptível em “Confesso”. A música combina uma bateria vigorosa com bases pesadas e alterações rítmicas que reforçam o caráter físico da proposta, enquanto “Tem Fogo!” amplia ainda mais esse espectro ao aproximar Metal, Funk e Rap sem perder a contundência. O processo de gravação contribuiu diretamente para esse resultado: a base instrumental foi registrada praticamente ao vivo no Rocklab Studio, em Anápolis (GO), com Manu fazendo uma guia vocal, estratégia que buscou preservar a urgência apresentada pela banda nos palcos.
Nas cordas, Jean Pagani e Raphael “Ras” Franco completam a formação responsável pelas gravações, respectivamente nas guitarras e no baixo. Pagani constrói uma parede sonora que passeia por riffs secos, Thrash e Groove, enquanto Ras garante sustentação às frequências graves sem comprometer a dinâmica do conjunto. “Exu Não Passa Pano” sintetiza bem essa combinação: riffs agressivos, andamento convidativo ao mosh e uma atitude Punk se unem a uma letra de confronto, tornando a faixa outro dos grandes momentos do repertório. Já a faixa-título acrescenta uma dimensão mais ritualística ao disco, enquanto “Psicoraio Dub” comprova que a UGANGA não utiliza suas influências externas como mero ornamento, incorporando-as organicamente à arquitetura das músicas.
O aspecto mais interessante de Ganeshu, portanto, está justamente na liberdade com que a UGANGA transforma referências aparentemente distantes em uma linguagem coerente. O próprio título sintetiza esse conceito ao unir simbolicamente Ganesha e Exu, enquanto as músicas transitam por espiritualidade, natureza, resistência, crítica social e experiências pessoais. “Pressentimento”, por exemplo, expande o repertório com Reggae e Rap e funciona como uma das passagens mais diversificadas do álbum. O resultado é um trabalho curto, direto e inquieto, no qual cada integrante contribui para uma sonoridade que não parece interessada em obedecer a fórmulas. Mais do que simplesmente celebrar três décadas de trajetória, Ganeshu registra uma UGANGA renovada, pesada e disposta a continuar abrindo seus próprios caminhos.
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